Baiano é finalista do Prêmio Jabuti com livro de crônicas

         



O jornalista baiano Marcelo Torres, cronista e articulista do Notícia Capital, é um dos cinco finalistas da 62ª edição do Prêmio Jabuti, na categoria “crônica”, com o livro "O dia em que achei Drummond caído na rua".

O autor — que é primo do escritor Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras, e da Academia de Letras da Bahia, ambos nascidos na cidade de Sátiro Dias — possui outros dois livros publicados: O bê-á-bá de Brasília, dicionário de palavras e expressões usadas na capital federal, e Os nomes da rosa, coletânea de crônicas sobre futebol e literatura.

 

O dia em que achei Drummond... reúne 26 histórias nas quais escritores ganham o papel de personagens. “Eu fiz muitas pesquisas aleatórias sobre a obra e a vida de vários autores e, quando achava algo inusitado, curioso, cômico ou mesmo trágico, eu partia desse fato e criava uma narrativa”, revela ele.

 

São narrativas sobre Machado de Assis, Gabriel García Márquez, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, James Joyce, Clarice Lispector, Umberto Eco, Albert Camus, Euclides da Cunha, Antônio Torres, Manoel de Barros e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

 

Mesmo morando em Brasília desde 2002, Marcelo Torres fez de sua cidade natal o ambiente onde se passam duas crônicas sobre Antônio Torres. Nesse livro ele conta também histórias de Jorge Amado em Ilhéus e Salvador. Além destas, a Bahia aparece numa quinta crônica, envolvendo um grande autor estrangeiro.

 

“Ainda na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos”, ele narra a história, “colocaram em seu pulso uma fitinha do Senhor do Bonfim. Como manda a tradição, para cada um dos três laços disseram para ele mentalizar um pedido”. Em seguida ele diz que “ninguém sabe quais foram os dois primeiros [pedidos], mas o último todo mundo ficou sabendo oito anos depois: — Fazei-me, ó Senhor do Bonfim — pediu ele — fazei-me com que eu ganhe o Prêmio Nobel de Literatura. E não é que o danado ganhou mesmo o bendito prêmio?”.

 

O autor

 

Marcelo Torres é formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia e possui duas especializações: Jornalismo Literário e Comunicação Corporativa. Trabalhou 30 anos no Banco do Brasil, onde foi o 1º colocado do Concurso 032/1987. Em 1999 obteve o 3º lugar no Prêmio Petrobrás, categoria universitário. Foi assessor de comunicação na Direção Geral do Banco do Brasil e na Presidência da República. Em 2012 foi o 2º colocado do Prêmio Nacional de Novelas Históricas, promovido pelo Governo do Estado da Bahia, com Aos pés do caboclo, obra ainda inédita, cujo tema é o Dois de Julho.

 

O Prêmio Jabuti é organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Esta 62ª edição teve 2.599 obras inscritas, em 20 categorias. Foram selecionados 10 finalistas, depois 5 finalistas e no dia 26 de novembro, às 19 horas, serão conhecidos os vencedores de cada categoria e do prêmio geral.

 

Em virtude da pandemia, a cerimônia este ano será virtual, transmitida pelos canais da CBL no YouTube, Facebook e Instagram.


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O dia em que achei Drummond caído na rua

 

Trechos de crônicas

 

No seu íntimo, talvez preferisse não estar diante da cena, aquele ritual, as rezas mecânicas, as velas queimando, o cheiro da morte, as confissões patéticas, os perdões insinceros — aos seus olhos, as lágrimas eram ridículas, principalmente as do pai [“Atrás de mil véus”].

 

Agora, na conversa com o jornalista, Tenório tinha os olhos de coronel sertanejo que acredita nas suas lendas, exibindo ao visitante o fuzil com o qual teria matado Lampião, o punhal que teria sido de Corisco e a cruz com que Padim Ciço fazia chover no Ceará [“O poeta e o pistoleiro”].

 

Havia um reino, um reino bem distante, onde o rei, a rainha e os príncipes — por doença ou por decreto — simplesmente não faziam cocô. E ninguém podia duvidar do fenômeno, sob pena de ser enforcado [“Na antena do gafanhoto”].

 

Viam as relvas crescendo na terra e nas palavras. Ouviam as folhas e o vento. E porque já era chegada a noite, viam a lua olhando e descendo e cercando e comendo as árvores. Os grilos e os sapos, silenciosos, escondidos, só os escutavam [“Nhô e Nequinho”].

 

Os dois: duas sombras, os mais vagos dos homens, na repartição onde o relógio zoava, a porta gemia, o arquivo de aço chorava e as teclas da máquina é que falavam [“O silêncio das igrejas”].

 

Uma pessoa que há menos de um mês pegara na minha mão, me dedicara palavras no papel, agora fazia de conta que não me conhecia, que nunca tinha me visto, aliás fazia de conta que não existia ninguém ali ao lado [“Crônica do desassossego”].

 

Eram homens que, não fazia muito tempo, ali chegaram derrubando matas, comandando jagunços e fincando cruzes e credos — tanto pelas mortes naquelas terras como pelas posses daquelas terras —, homens que plantaram um fruto que valeria ouro, homens que fundaram cidades, quase todas as cidades da região [“O menino e os coronéis”].

 

O escritor que o atendeu à porta — revelemos seu nome: José Veríssimo — pediu para o moço aguardar ali fora. Voltou-se para a sala, explicou a situação, pediu a opinião dos colegas. O conclave: Euclides da Cunha, Coelho Neto, Mário de Alencar, Graça Aranha, Raimundo Correia e Joaquim Nabuco [“A visita do leitor anônimo”].

 

O acaso, esta coisa que o próprio Machado disse ser deus e diabo ao mesmo tempo, o acaso às vezes aparece feito um corvo, ou feito uma gralha, e resolve ser irônico justo com os que cultuam a ironia, pouco se lhe importando se os adeptos dessa nobre figura de linguagem são seres que andam ou não andam na linha [“O bruxo e a gralha”].

 

Não parecia ser incômodo para ninguém, entre as pessoas do seu convívio, a fama com a qual ele deitara na cama: a de um indefectível femeeiro, um incorrigível mulherengo. Vivia ele, e todo mundo sabia, vivia ele vagando de cama em cama, como se pulasse de página em página — às vezes, camas de solteira; outras, de casada [“Dona Angelina endoidou”].