O ÚLTIMO VÔO DO POETA

         



Por Gilfrancisco
A EXU nº24 (novembro/dezembro) homenageia Carlos Anísio Melhor, poeta e amigo (1935-1991) e o homenageia reproduzindo um seu depoimento sobre a geração Mapa, dois poemas inéditos e uma tradução, mostrando o múltiplo talento que infelizmente em junho deste ano nos foi levado. Para Anísio a saudade de todos nós. 

Esta figura doce e boa, rara pessoa em quem ainda se podia confiar por inteiro nesses nossos corrompidos tempos, tinha um sorriso eterno de quem sabe que mesmo partindo, havia semeado o universo, com sua grandeza, seu talento e grandiosidade. As esperanças e conflitos, confundindo-se com a anulação da individualidade e com a desumanização dos ambientes natural e urbano, enfrentando um mundo cada dia mais incompreensível, com seus sonhos, amores e frustrações. Este, em fase de consolidação e reconhecimento da própria identidade, busca na poesia, - gênero que mais se universaliza nessa época -, uma consonância com a arte de seu tempo, convertendo-se num de seus intérpretes mais significativos.


A adoração da poesia, e, por extensão, da literatura, mostram-se ao poeta como o reino por excelência da fantasia, sendo a leitura, enquanto ato individual e único, o procedimento que abre novas fronteiras à mente humana. Anísio foi friamente assassinado no dia 20 de junho por um câncer que desconhecia seu talento e sua grandeza humana. Poeta extraordinário, figura humana do mais agradável convívio, um poeta sagrado e profano, que rompe com o mítico para desnudar-se como um cientista da linguagem, representa a mais pura radicalidade poética das nossas letras.


Eu o conheci em 1970 ou 1971, numa de suas fugas do sanatório Juliano Moreira, numa dessas quebradas noturnas regadas a álcool, canções e mulheres, quando o espírito se enriquece e o corpo se acaba. Foi na Transversal da 28 de Setembro, no Guaciara, apresentado por Jehová de Carvalho, Angelo Roberto, Gato, Siri, Fred Souza Castro, Carlos Sampaio e outros. – Eu na missão de captar para transmitir e ele na de transmitir para captar. Ele me captou e ficarmos amigos. No comando do barco que navegava até hoje, com velas incólumes em cuja proa outrora, lia-se “jogralesca”, o poeta ensaiava um novo sarau a cada encontro. E ao ouvi-lo recitar pela primeira vez, meu coração me surpreende, batendo mais alto, ensaiando, pulsares de maracatus, “quebradas” de frevo, sugestões de cocos e emboladas.


- E como novo tripulante, seguir a bordo nas suas longas vigílias, navegando noite à dentro em sua companhia.


A imagem permanente que guardo do poeta Carlos Anísio Melhor é o de seu sorriso, porque ele sabia das coisas, e quem sabe das coisas sorri para eternidade. E seu maior sorriso ficou em “Canto Agônico” – Editora Civilização Brasileira/FCEBA, 1982. Era o grande íntimo da caluniada noite baiana, o bom caráter, o companheiro de copo, o primeiro que a gente lembra de procurar quando se pretende fazer uma grande boemia. Um homem não subjugado ao mito, mas como senhor de si próprio, a resgatar seu destino, desaguando na constatação da tragédia da existência humana. Cuja poesia parece descarnada do poema, como um veneno corrosivo para a profundidade do eu, versos que afrontam para o novo século que se anuncia as redescobertas através da escrita de um poeta da excelência de Carlos Anísio Melhor – Bobagem compará-lo: Anísio não teve antecessores nem terá seguidores, sua obra não comporta epígonos. Por isso é que, após a leitura de “Canto Agônico”, só é possível o silêncio, ou; no máximo, um gemido.


Perdemos o autor, por uma fatalidade recebeu precocemente um ponto final, ficamos com a obra. Agora resta-nos preservá-la e divulgá-la, fazê-la renascer eternamente através da atenta leitura, e descobrir que seus poemas são como o espelho que reflete o que temos de mais nobre e amoroso. Mas finalmente encontraste paz, aquela paz que a gente só encontra na morte, no céu, na santa Glória de Deus, cercado por anjos. Porque poetas vivem para sempre, nunca morrem, ficam encantados – ele veio de um mistério, e partiu para outro. Por isso eu o adoro, e por isso eu o admiro, sempre querido, saudoso amigo, e por isso eu assino abaixo.
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Jornalista e escritor


Salvador, 21 de junho de 1991