Em busca da mobilidade perdida

         



Por Eliecim Fidelis
O hábito de recolher-se em sítios, casas de campo ou de praia em fins de semana sempre foi comum entre as famílias de melhor poder aquisitivo, mesmo em situações comuns da vida. Acumulam-se no decorrer da semana as preocupações e o estresse da labuta diária, e usam-se os feriados para a catarse. 

Os períodos de pandemia acentuam a necessidade de similar comportamento, e isso deve ter sido a causa que inspirou Giovanni Boccaccio a escrever o clássico Decamerão (1894). Para fugir dos efeitos devastadores que a peste negra disseminava nas cidades europeias, um grupo de jovens formado por sete moças e três rapazes, refugiaram-se em um castelo situado na vizinhança de Florença (IT). Sob o reinado de Pampineia, primeira rainha eleita para liderar o grupo, passaram a conviver divertindo-se e narrando novelas diárias, as quais denunciavam os hábitos culturais, morais e éticos da época envolvendo a realeza, a burguesia e o clero.
Também no momento atual, quando nos aflige a peste do Covid19, tem-se recorrido cada vez mais a essa prática. Porém, se o propósito inicial consiste em fugir para locais salubres longe da capital, pensando em evitar aglomerações, nem sempre isso é possível, uma vez que os grupamentos humanos, por sua natureza gregária, tendem ao nomadismo e, como ciganos, acabam apenas se deslocando geograficamente.
De minha parte, posso contar a experiência que tive na última semana, em uma vila do Litoral Norte. Ali, dentro de casa, era o mesmo burburinho de qualquer época, misturando-se o vozeirão dos que se excedem na bebida aos batuques das bandas improvisadas, de pandeiro e panelas, acompanhando o karaokê interminável que se prolongava noite a dentro, esquecendo da vizinhança, da criança que dorme ou do velho que descansa.
Nas ruas e nas praias, pessoas tentando resgatar a liberdade perdida; máscaras despregadas, abaixo do queixo, ora encobrindo, ora expondo partes do rosto, sumidas ou esvoaçando-se ao vento. Pessoas, aos montes, correndo atrás da mobilidade proibida, circulando livremente como se o vírus também tivesse tirado férias. Pessoas portadoras de alergia respiratória podendo espirrar com liberdade, sem os olhares enviesados daqueles que, nessas horas, censuram qualquer grunhido humano. Tudo isso porque o prolongamento desta quarentena tem exigido graus de suportabilidade incompatíveis com a tolerância humana.
Pude, enfim, mirar de perto aquele pedaço de natureza fantástica, a mesma natureza que pode em um só instante nos tomar de volta tudo aquilo que generosamente nos oferece ao gozo, e ainda nos escancara, como testemunha, a amplidão dos mares e dos campos, para não nos deixar esquecer que não somos tão grandes como às vezes pensamos.
--------------------  
Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise
fidelis.eli@gmail.com