Adeus, Ano Velho! Feliz Ano Novo!

         



Por Eliecim Fidelis
Chegou a hora de enterrar o Ano Velho. Esta é uma tradição em muitos municípios baianos. Em Bonfim de Feira, distrito de Feira de Santana, por exemplo, por mais de quarenta anos as pessoas despedem-se do ano velho em meio a festejos, ladainhas e algazarras; acompanhando o cortejo, saem carregando o féretro pelas ruas do lugarejo. Faz parte do ritual a escolha de um conterrâneo para tornar-se o grande homenageado do ano, a deitar-se no caixão e, depois de trocado por um boneco, queimado em praça pública.
Semelhanças à parte, para este ano o homenageado não precisaria ser uma pessoa de verdade, como é praxe naquela comunidade. Ao pé da letra, sem nenhum pudor, poderia ser colocado no caixão o próprio 2020, e em suas mãos sujas um longo relatório registrando, por justiça, as raras coisas boas que possibilitou a alguns, mas plenamente superadas pelo rol de malignidades, uma vez que até o que surgiu de bom, por exemplo no campo da tecnologia, resultou da necessidade de adaptação à quarentena eterna a todos submetida.
Senhor Ano Velho, assim como não permitiste entre nós abraços e beijos, durante teu tenebroso mandato por aqui, também não abraces nem beijes teu irmão que chega, para não contaminá-lo com a peste que para nós trouxeste e que deixa marcas pungentes: de gente com medo e sofrida; de gente morrida, agonizando de dissabores, por falta de ar, de leitos e respiradores. Em contrapartida, antes que adentres, sozinho, teu merecido descanso pelas margens do Aqueronte, sob o remo impetuoso de Caronte, tens a oportunidade de reduzir tua pena, rogando perdão àqueles a quem subtraíste a vida, e precisaram ser enterrados correndo, sem choro nem vela, e sem a despedida dos entes queridos.
Adeus, 2020!... E que, no caminho, não contamines o futuro de teu sucessor que cruza a mesma fronteira: um saindo, outro chegando; um cabisbaixo, outro alvissareiro. Ao cruzar com 2021, nos instantes separados por milésimos de segundos, procura passar despercebido, nem cumprimentes ou pisques para o teu sucessor, para não contaminá-lo, pois ele, diferente de tu, encerra toda nossa esperança, e precisamos que ele chegue feliz e forte; marchando garboso, cabeça erguida; sorrindo gargalhadas, trazendo de volta a vida!
Precisamos, enfim, cantar à meia noite, com risos e altivez, a valsa de autoria atribuída a David Nasser e Francisco Alves que se tornou a canção tema do réveillon brasileiro, a partir de meados dos anos cinquenta. Nada mais oportuno do que as mensagens simples trazidas em sua letra: Adeus, Ano Velho! Feliz Ano Novo! Que tudo se realize no ano que vai nascer!/Muito dinheiro no bolso,/Saúde pra dar e vender... Nenhuma esperança perdida/.../Paz e sossego na vida.
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Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise/fidelis.eli@gmail.com