Gênesis: as paixões do ser desde sempre

         



Primeiro homem e primeira mulher criados pelas mãos divinas. Como habitat, um Paraíso na terra e a miragem de uma família perfeita, paz e felicidade absolutas. Será?

Após o breve e monótono usufruto do Jardim do Éden, toda a lengalenga posta até o capítulo três de Gênesis, a nova novela da Record TV, girou em torno da culpa. Eva culpa-se por ter induzido Adão ao erro. Adão se culpa por ter desobedecido ao Pai, e este atribui a culpa a todos e aplica punições a cada um.

A oferta do Paraíso é condicionada à lei de um pai tirano: tudo tem que ser do jeito que Ele pensa e quer: “Tome esse paraíso, Adão. Cuide de tudo, use de tudo, mas não pode tocar no fruto dessa árvore” – disse o Pai. Ainda na contramão da concórdia, o Pai teve a ideia de criar uma mulher, uma linda mulher, e oferecer a Adão como companheira. Não parece a ideia de quem já havia planejado tudo, inclusive as consequências?

De outro lado, enraivecido porque foi expulso do céu ao tentar roubar o trono de Deus, Lúcifer passa a tocaiar os passos da criação divina e a projetar-lhe as chamas malignas, desde os vislumbres hipnóticos dotados à serpente, que levam Eva a encantar-se pelo fruto proibido. Mas ela não se satisfaz em saboreá-lo sozinha. Inocente quanto à trama da discórdia atrás do pomo, ela quer repartir o doce com o namorido. É o amor...

Depois chegam Caim e os irmãos. Mas o primogênito é mais do que isso. Traz a função de repetidor da desobediência ao Pai, e é escolhido por Lúcifer para representá-lo no seio familiar, este que já nasceu sob o germe da ambivalência.

Aparece o machismo nas posições de Adão, compartilhado entre os filhos do sexo masculino. Torna-se intransigente porque se culpa pela desobediência, e insiste em transferir a culpa para a companheira. O estado de submissão e coragem da mulher é estampado na figura de Eva, que não consegue espelhar entre as filhas.

Através do que podemos aproximar da metáfora freudiana do pai da Horda, as questões edípicas impregnam-se na estrutura familiar. Posições feministas começam sob a liderança de Renah, que parte com as irmãs em busca de uma vida livre do império machista.

O lado bom representado pelo ingênuo Abel, mesmo bem sucedido em sua oferenda de perdão ao Senhor, que traz a harmonia ao casal, não consegue vencer a força luciferina, e inaugura-se na história o primeiro fratricídio, seguido do primeiro incesto entre os irmãos Caim e Kira.

Eis o espelho original da natureza humana refletido na contemporaneidade, sob a dominância das paixões do ser e suas ramificações: amor, ódio, ignorância; ciúme, inveja, rebeldia, ganância, ira, vaidade. E uma culpa primordial que transcende de Pai a pai, e por gerações e gerações. Desde sempre.
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Escritor e psicanalista