Carteiros, uma história de fé e força

         



Por Diácono Joselito Conceição
Foi das mãos do carteiro que nasceram os Correios. Luiz Homem, assistente dos Correios em Portugal, designou o Alferes João Cavaleiro Cardoso para Correio-mor do Brasil, datado de 25 de janeiro de 1663 – embora sobre essa data existam controvérsias de alguns historiadores, essa é a que ficou como oficial. Paulo Bregaro disparou do Rio de Janeiro para São Paulo, levando carta de Dona Leopoldina para D. Pedro I, que resultou na proclamação da independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, como nos conta a história. Paulo Bregaro é patrono dos carteiros no Brasil. A publicação oficial do decreto 255, de 29 de novembro de 1842, institui e disciplina a distribuição domiciliar. No Estado Novo, com Getúlio Vargas, na década de 30, existiam os Correios e a Repartição dos Telégrafos, separadamente. Houve a unificação formando o Departamento dos Correios e Telégrafos, ligado ao Ministério de Viação e Obras Públicas, que durou até 1969, quando foi criada a estatal Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, vinculada ao Ministério das Comunicações.


Os Correios figuraram no Brasil entre os serviços mais confiáveis, de abrangência inigualável, cobrindo todo o território nacional. Nas ruas, o anúncio “Correios!”, enchendo de expectativas os moradores, tornou-se uma tradição histórica e cheia de emoção. A carta daquele soldado na guerra enviada para sua mãe; os romances por correspondência; o romântico que recorda Isaurinha Garcia cantando: “Quando o carteiro chegou, meu nome gritou com a carta na mão...”; o rapaz do Amazonas que escreve para a moça do Rio Grande do Sul; e o cupido chamado Carteiro é convidado para o casamento e padrinho do primeiro filho. De quantas notícias alegres os carteiros foram e são portadores! A marca dos Correios sempre foi aproximar distâncias. Lembra uma expressão usada pelo Papa Francisco, que recomenda: “Derrubar muros, construir pontes”.


A fé e a força
Logo na primeira década do século XX, os carteiros da Bahia, angustiados com alguns impactos negativos na categoria, recorreram a quem podiam: o Senhor do Bonfim; e tiveram a alegria da Vitória. Em 1910, os carteiros adquiriram para si uma réplica da imagem do Senhor do Bonfim, saíram em procissão da Praça da Inglaterra (no bairro do Comércio, em Salvador) até o Bonfim para render graças ao Grande Protetor. Costumavam fazer essa procissão no último domingo de setembro. Em 1978, a categoria resolveu incorporar a procissão ao Dia do Carteiro– até então, celebrado separadamente. Fazendo história de fé e força, os carteiros da Bahia mantêm a tradicional Procissão dos Carteiros desde 1910. Depois de alguns anos, com a mudança da sede dos Correios do Comércio para a Pituba, vários centros de distribuição domiciliar espalhados pela cidade – já não se concentrava toda a categoria na Praça da Inglaterra–, resolveram fazer a concentração no Largo de Roma, para seguir em caminhada para o Bonfim. A escolha não foi à toa: por muitos anos, uma freirinha muito querida pelos carteiros via a procissão passar em Roma. O nome dela? Santa Dulce dos Pobres. Depois, durante muitas vezes, tiveram a honra da companhia de D. Dulcinha (irmã da Santa) de Roma ao Bonfim.


Neste ano de pandemia, não pôde haver a concentração. A saudável e alegre aglomeração dos carteiros no Largo de Roma não pôde acontecer. Eu, ex-carteiro, sinto saudades. Mas a fé permanece firme e forte, e os rogos ao Senhor do Bonfim não faltaram, no sábado, dia 30, embora em número reduzidíssimo por força das circunstâncias, não quebraram a tradição de 111 anos, participaram da celebração eucarística na Mansão da Misericórdia com singular entusiasmo, estava no andor ornamentado, a réplica da imagem do Senhor do Bonfim, que permanece até hoje no prédio dos Correios na Praça da Inglaterra, bairro do Comércio, desde 1910. Os carteiros, por mais cuidados que tenham, precisam de especial proteção: como não temos remédios preventivos, contam com a misericórdia de Deus, e rogaram pelo livramento dessa doença que ameaça e assusta. Entre outras, era essa a graça mais urgente que desejavam e foram buscar.


Diz a canção: “Amado Jesus, Senhor do Bonfim, tende piedade e compaixão de mim.”


Repetimos: Amado Jesus, Senhor do Bonfim, tende piedade e compaixão de todos nós!
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Radialista, Articulista e diácono