ACM “boquinha” Neto?

         



Por Victor Pinto
Rodrigo Maia (DEM) retou. Quando, em recente entrevista, sinaliza que o DEM virou um partido de “boquinha”, ao fazer referência ao toma lá da cá dos cargos do governo Federal, deixou cair no colo do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, esse título. A ira do futuro ex-presidente da Câmara Federal está resumida nas eventuais traições de membros da sua sigla que abriram mão do nome do deputado Baleia Rossi (MDB), seu candidato na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados.

A visita do deputado federal Artur Lira (PP) [rival de Baleia] a Salvador, tratado com pompa em um disputado almoço no Barbacoa e em outras reuniões particulares, gerou ciúmes e mostrou o caminho da briga pela presidência. Além de deputados da base do governo Rui Costa (PT) - leia-se principalmente o PP de João Leão -, os parlamentares eleitores do grupo netista não se esconderam dos jornalistas e deram sinais claros de apoio.

Apesar de lideranças ligadas a Neto apontarem somente como “cortesia” a recepção, a visita de Lira foi mais badalada na comparação com a de Baleia. Fez recordar a disputa de 2015 quando Eduardo Cunha (MDB) e Arlindo Chinaglia (PT) disputavam a vaga. O emedebista dominou o noticiário local e mostrou ter maioria da bancada baiana em seu favor. Fato muito semelhante ao pepista.

Ainda sobre apoios e ACM Neto ter ou não sua boquinha para os cargos federais, inclusive com João Roma, um deputado muito ligado ao seu núcleo, cotado a assumir um ministério no governo Bolsonaro, a conversa no bastidor é não se indispor com o presidente, que resolveu dar uma banana para seu eleitorado fiel e abriu as torneiras para o Centrão.

Contudo, vale destacar, o ex-prefeito de Salvador demonstrou em gestos e ações seguir com sua palavra. Em 2018, por exemplo, seguiu até o fim Geraldo Alckmin, apesar de boa parte dos seus aliados não terem seguido sua indicação e avançarem, ainda no primeiro turno, no voto em prol de Bolsonaro. O tucano, no fim das contas, teve menos votos do que Cabo Daciolo, o que ficou feio para o democrata. No segundo turno, pela sanha antipetista, apoiou o capitão. Tentou colher as benesses institucionais, mas ao mesmo tempo se afastar dos holofotes para não carregar qualquer tipo de pecha futura.

É notório que o resultado da eleição da Câmara pode impactar profundamente os percursos que chegam em 2022. Por mais que Lira seja o candidato do bolsonarismo, nada seguraria Baleia de flertar com o grupo do presidente, afinal os conchavos do poder nortearam essa peleja. Neto ficou no meio termo. Pelo conversado com alguns, demonstra ter se afastado do front para não colher prejuízos e destoar o lobby político.

Caso não busque punir eventuais traidores, colocará em xeque sua autoridade na sigla. Se isso não ocorrer, deixará claro que o jogo duplo fez parte da estratégia de continuar amigo do poder independente quem nele esteja.
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Jornalista _ twitter: @victordojornal