Um ano de Covid 19: algumas reflexões e aprendizados

         



Por Eliecim Fidelis
Fevereiro é o mês que marca o começo da pandemia no Brasil a partir do primeiro caso de contaminação em São Paulo (26/02/20), em um homem de 61 anos que regressou da Itália. Desde então os números não param de crescer e já miram o horizonte de dez milhões de infectados e mais de duzentas mil mortes. O que podemos conjecturar de aprendizado? Não pretendendo esgotar os diversos aspectos que podem ser analisados, levantamos alguns pontos desordenados para reflexão:

Os seres humanos continuam desiguais perante a lei, e perante o vírus há os que procuram ser mais desiguais do que outros. Há muita gente de bom coração espalhando humanidade na terra, mas há também quem é capaz de furar fila e querer tirar vantagens no caos.
O vírus que se multiplicou no Brasil não foi só aquele que o paulista importou; foi também aquele com o qual o poder público não se importou na tempestiva hora; os interesses políticos e egoístas não são duas coisas separadas, e estão acima dos interesses humanos.
O tempo, que antes parecia correr, agora parece somar para menos quando o assunto é encontrar os amigos.


O vírus não criou nenhuma China para vingar-se da hegemonia capitalista; ele é resultado da ação do próprio homem do capitalismo quer ocidental quer oriental.


Mente a doutrina econômica quando diz que o ar é um bem livre – que o digam os entubados que escaparam e os parentes que os acompanharam.


Dona Débora suportou um ano em casa com o mesmo piso, mesmo papel parede, cortinas e lustres, e não morreu por isso. Mas Dona Narcisa não resistiu ao contrair o vírus de uma esteticista assintomática que lhe retocava todo dia a maquiagem.
Casados aprenderam que varrer casa e lavar louça não é fazer favor à esposa, mas um dever de cúmplice dono de casa; outros pelo mesmo motivo brigaram, agrediram, separaram.


Solteiros viram que o tempo que pensavam ganhar em bares e baladas ficou perdido no que se perdeu do que poderia ganhar em noitadas de boas leituras; outros anseiam para que tudo volte ao que era; outros enveredam por trilhas não sonoras tentando abastecer o vazio da dor.


A ciência esperou ser roubada para fechar as portas, mas mostra que é asneira espalhar que vira jacaré, calango ou lagartixa quem toma vacina de qualquer bandeira.


Que os maiores valores da vida moram nas simples coisas: um abraço na mãe, um cheiro no neto; no ar que se respira, nas ondas floridas que brilham no campo e no teto.


Que a mídia moderna tem o poder de produzir milagres e misérias – disso já sabíamos.


Aprendemos, enfim, que bom mesmo é poder cantar e dançar na chuva de vida que, ainda, cai sobre nós. É saber sonhar, pois a vida é trem-bala, parceiro; e a gente é só passageiro prestes a partir, de Covid ou não.
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Escritor e psicanalista. fidelis.eli@gmail.com