Quem tem boca ou “boquinha” vai a Roma

         



Por Victor Pinto
O cavalo passou selado e o deputado federal João Roma (Republicanos) não pensou duas vezes: ele, que está acostumado a cavalgar em seu haras, sentou na sela e partiu. Bolsonaro o convidou e assim assumiu o ministério da Cidadania. Gasolina jogada na fogueira política. ACM Neto teria desabonado a medida e pedido para o aliado não aceitar o convite. Aceitou mesmo assim.

O presidente do DEM acaba chamuscado nessa labareda por ser um afilhado político seu, mesmo esse não sendo da sigla a qual chefia. A pecha de boquinha dada por Rodrigo Maia (DEM) referente a cargos após a contenda em torno da presidência da Câmara Federal agora facilmente se aplica ao republicano.

Se o jogo não for de cena, uma cortina de fumaça diante do teatro político, houve de fato uma traição que atinge planos de eleições futuras. Eu, sinceramente, não descarto essa hipótese, a não ser que aliados, antes liderados, queiram dar uma resposta aquele que os lideraram nos últimos anos. Uma insurreição política para possuírem as rédeas dos seus próprios destinos políticos?

Acostumado com a Câmara de Vereadores de Salvador nos últimos oito anos, o antigo mandatário do Palácio Thomé de Souza tem sua liderança colocada em xeque, caso, de fato, essa questão que abalou os bastidores políticos no fim de semana não tenha sido uma narrativa ficcional.

Os mais chegados negam rompimento, uma quebra, uma virada de mesa, e classificam a situação como um “desentendimento momentâneo”. Outros apontam para traição. O simples fato de ACM Neto apontar um singelo lamento em publicação no Twitter não demonstra que alguma medida dura seria tomada ao aliado. Mesmo assim, a linha de corte de indicados de Roma na prefeitura de Salvador começou tão logo no úlitmo sábado, mas não se sabe até que ponto é retaliação, pois se assim for, o Republicanos não entraria nesse rol? Foi a sigla que endossou e pavimentou todo esse cenário.

Roma tem acompanhado Bolsonaro em todas as agendas políticas e administrativas na Bahia e nunca foi repreendido pelo padrinho. Conhece bem Brasília e não chegou por lá em desamparo, muito pelo contrário: já conhecia os corredores do poder e por onde precisaria caminhar. ACM Neto não sabia disso? Não se beneficiou ou se beneficia deste conhecimento?

Ser ministro de Bolsonaro colocará em Roma para todo o sempre o carimbo do atrelamento ao bolsonarismo. Com certeza isso será cobrado dele em 2022. É uma pasta de operação com a ponta da lança que comanda benefícios sociais, a exemplo do Bolsa Família, mas também não é garantia de construção da reeleição, a não ser que o Republicanos crie cangote para colocá-lo por sua cota na briga da chapa majoritária estadual do próximo pleito.

Várias são as hipóteses jogadas no pano de fundo dessa nomeação. Não há dúvida da insistência do Planalto pelo nome do pernambucano ex-chefe de gabinete da prefeitura de Salvador como forma de manter vínculo com ACM Neto ou abalar a relação. O troco veio com as declarações dadas pelo próprio Neto ao dizer que o DEM não é governo, mesmo com dois filiados do partido no primeiro escalão [Onyx Lorenzoni e Tereza Cristina].

Um adendo: a porrada da oposição baiana ao governo Bolsonaro via Roma será segura e toda a crítica será colocada na conta do ex-prefeito de Salvador e pretenso candidato ao governo. Tudo que o PT queria para reacender um discurso de BA-VI. Se a gestão federal for bem até 2022, o tiro pode sair pela culatra, mas pelo andar da carruagem vai ser pedrada em cima de pedrada.

Quem tem boca pode até ir a Roma, mas a boquinha é certa no Planalto.

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Jornalista // twitter: @victordojornal