OBRA QUE ARDE E ENGASGA, MAS ALIMENTA O QUERER

         



Por Zé de Jesusbarrto
  “Tinha certeza: Era um caminho sem volta.

   A Revolução me tomara nos braços, não me soltaria mais, amante exigente.

   Penso no entrelaçamento da razão e do Inconsciente”

   (O 1º de maio de 1968, em São Paulo, rito de iniciação de um revolucionário)  

 *
O livro O cão morde a noite, do jornalista e escritor Emiliano José (EDUFBa/2020) não é para ser lido de um gole. Impossível. Nalgumas páginas o leitor entala, dá aquele nó na garganta. Há relatos que vibram como um soco no estômago, daqueles que tiram o fôlego, a fala, e os olhos marejam. Mais que uma autobiografia, que depoimentos em entranhas expostas, é um livro de História. Trata de acontecimentos de uma época ainda muito latejante contados por quem a viveu muito intensa e arriscadamente, comprometido inteiro com uma causa que lhe era e é o próprio sentido do viver. Sim, história de parcela de uma geração, de moços e moças que acreditavam em sonhos brutalmente transformados em pesadelos que ainda atormentam.

 Digo, O cão morde a noite não é leitura pra qualquer um. É um porradão. Uma leitura ardente, mas gostosa, pimenta e dendê, sangue, fogo e luz. É militância pura. A cabeça e a alma do militante Emiliano, carne viva, pondo o leitor a refletir sobre cada momento daquilo tudo que aconteceu (no Brasil e Latino-América) entre os anos de 1964 e 1979, sob o regime militar: O golpe, as asas da liberdade podadas, as manifestações estudantis, as organizações e partidos de resistência, o grito da Tropicália, o recrudescimento da ditadura, a luta armada, os porões inimagináveis das torturas, os sumiços, todos os limites humanos testados, prisão e prisioneiros, a solidariedade, conquistas, perdas, amores...  A esperança, a fé num amanhã que não sabemos, a luta, a luta, a luta ...

  O autor não alivia. Dá nome aos bois, torturados e torturadores, solidários e covardes, tintim por tintim dos debates, do ativismo, dos rachas, dos pontos, das quedas, dos cachorros, dos uivos, do ódio e do querer bem, surpresas, revelações...  E o livro termina contando como aconteceu a fuga (que belo filme daria) de Theodomiro Romeiro dos Santos, o menino que foi condenado à morte, prisão perpétua e, na quase primavera de 79,  saiu caminhando pelo mato atrás da liberdade. Um belo final.

 *

  Além das fortes emoções contidas e contadas, o livro é bem escrito. Emiliano é do ramo, descobri no primeiro dia em que ele, recém saído da Galeria F da Penitenciária Lemos de Brito, chegou na Tribuna da Bahia, repórter pronto. Gosto do estilo, às vezes duro, leve outras tantas. Frases curtas, enxutas, parágrafos quebrados, facilitando a leitura, aliviando os olhos, amaciando tensões. Belo trabalho editorial.

  *

O livro termina assim:

 “ ... aqueles tempos deixaram feridas que volta e meia se abrem.

   Mas os mesmos tempos alimentam sonhos jamais abandonados”

*

  Esse é Emiliano, um irmão (aquariano), um amigo querido que aprendi a gostar desde o dia em que, cabeludo e seguro do que queria, destampou à minha frente, na redação da Tribuna, em 1974. Tinha alguma referência dele, liderança estudantil, mas não sabia direito de sua história, do que tinha feito e passado até ali. Energia boa, competente, decente e cativante. Fomos colegas de jornalismo e coberturas, batemos uns babas renhidos, trocamos prosas, temos filhos batizados com o mesmo nome (Theo) e propósito, e trilhamos caminhos diferentes, sem jamais perder o querer bem mútuo, bem sabemos.

  O respeito e a admiração cresceram mais ainda agora, depois de ler esse belo e chocante O cão que morde a noite. Tocou-me.

 Lido e relido, riscado, anotado, refletido, recomendado e bem guardado. 

*

  José de Jesus Barreto,  jornalista e escrevinhador.