Filarmônica Ambiental resgata canções do Litoral Norte da Bahia

         



Cinco composições de grande significado para a tradição musical do Litoral Norte da Bahia, presentes no repertório de manifestações culturais da região,  ganharão arranjos exclusivos para filarmônica e serão gravadas pelos músicos da Filarmônica Ambiental, de forma remota. O objetivo é preservar e divulgar o acervo cultural da região onde a Filarmônica tem sede.

O trabalho é resultado do projeto Sons Ambientais do Litoral Norte, aprovado pelo prêmio Jorge Portugal categoria Música e resultará na disponibilização gratuita das gravações nas plataformas digitais, além de dar atividade e renda aos músicos, privados de suas atividades durante o isolamento social.

Das composições que serão contempladas pelo projeto Sons Ambientais do Litoral Norte fazem parte do repertório o Dobrado Esperança, representando a tradição da música lida em partitura desde a criação da Filarmônica Ambiental pelo maestro Fred Dantas em 1997 e mais quatro faixas originadas de três manifestações culturais : o Reisado do Guará (incluindo uma gravação do Reisado e outra do Samba do Guará), o Samba de Roda e o Zé de Vale. O Reisado do Guará é um ritual de visitação de casa em casa por um coral de participantes e dançarinos, acompanhados por músicos de viola e percussão, onde em dado momento – após os versos de natureza sagrada que falam do nascimento de Jesus – surge a figura de um lobo guará estilizado, em fantasia vestida por um participante.

Samba de Roda do litoral norte tem elementos diferenciadores do samba de roda de Cachoeira e do Samba-Chula de Santo Amaro, possuindo certas canções ligadas ao ambiente praiano e rural que merecem nosso registro. O projeto Sons Ambientais é concluído com o resgate do  Zé de Vale, um drama cantado e declamado sobre conflitos sociais durante eventos natalinos, há muitos anos encenado em praça pública e hoje extinto na sua forma original.

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

 

Sobre a gravação - Cada músico gravará as cinco músicas do repertório com seu instrumento isolado e também será filmado com câmera 4k. Cada instrumento será isolado em pistas de edição de áudio para depois ser mixado. Som e imagem serão unificados compondo uma única imagem com dezenas de quadrinhos, onde cada músico aparece tocando seu instrumento. Entre os músicos da Filarmônica Ambiental que estão ensaiando para as gravações estão Liriana Batista, Jefferson de Jesus e Rafaela Freitas (clarinetas), Weik Raylan Ferreira e Beatriz Celestiano (sax alto), Vinicius Amâncio (trompete), Pedro Mariano (trombone) e Moisés Costa (bombardino), Enzo Coelho e Jr. Ferreira (Percussão).

Os videoclipes resultantes das gravações serão disponibilizados gratuitamente a partir de março de 2021, no canal do Youtube da Filarmônica Ambiental, para homenagear os 24 anos de fundação da filarmônica.  Haverá também uma versão fonográfica no formato EP (Extending Player) contendo as músicas. Cada videoclipe terá uma abertura feita por um apresentador que contará um pouco da história de cada música, curiosidades, situações onde ela é usada pela população.

A pesquisa do Reisado do Guará e do samba do guará fazem parte da história de vida do maestro Fred Dantas junto à cultura da zona rural de Barra do Pojuca, onde residiu, fundou a Escola Ambiental e a reserva ecológica onde existem três nascentes e uma cobertura vegetal de restinga preservada. Seus resultados foram levados à serie Bahia Singular e Plural, do Irdeb.

Para o Zé de Vale e o Samba de roda, ou samba-chula, o principal entrevistado-memorialista é o babalorixá Manoel da Conceição Filho, conhecido como Bochechinha. Dono de uma memória única e prodigiosa, Bochechinha é um líder cultural envolvido há meio século numa verdadeira luta para que não se extingam as tradições afro-baianas na região de Barra do Pojuca, Camaçari.

https://www.youtube.com/watch?v=CVpD-_ic-ts&authuser=0

 

AS LETRAS DAS CANÇÕES

Reisado do Guará

Deus te Salve Casa Santa

Onde Deus fez a morada

Onde Deus fez a morada

Onde mora o cálix bento

E a hóstia consagrada

E a hóstia consagrada

 

Coro: Deus te salve casa santa...

Onde Deus fez a morada

Onde Deus fez a morada

 

São José Santa Maria

Eles foram a Belém, Eles foram a Belém

Eles foram cantar Reis

Cantaremos nós também

Cantaremos nós também

 

Coro:

Deus te salve casa santa...

Onde Deus fez a morada

Onde Deus fez a morada

Quem aqueles cavaleiros

Que evém da banda do mar, Que evem da banda do mar

É os três reis do oriente

Que a Jesus vem adorar

Que a Jesus vem adorar

 

Coro: Deus te salve casa santa...

Onde Deus fez a morada

Onde Deus fez a morada

 

Dobra língua:

Dona da casa me pague meu Reis

Dona da casa me pague meu Reis

Para o ano eu venho outra vez

Minha ciana...

Já mandei abrir a porta...

Dona da casa me pague meu Reis

Dona da casa me pague meu Reis

Para o ano eu venho outra vez

Minha ciana...

Já mandei abrir a porta

Já mandei abrir a porta...

Dilê

Abra porta que eu morro

Dilê dilá

Ô abra não que já morri

Dilê dilá

Cheguei da cidade ioiô

Da Bahia

E também seu Freds Danta

Dilê dilá

Me apareça e não se esconda

Dilê dilá

Cheguei da cidade ioiô

Da Bahia

Samba de Roda

 

Mandei selar meu cavalo / Na hora de viajar

Peguei a mão da morena/ morena largou-se a chorar

Não chore não moreninha /  que eu vou e torno a voltar

Dá um aperto de mão / para de mim se alembrar

Morena quando tu for /  me leva

Chorá, chorá, chorá

                        Na prima dessa viola (bis)

Mandei selar meu cavalo / tá na mão do selador

Posso morrer no punhal / mas a morena não dou

Morena quando tu for /  me leva

            Chorá, chorá, chorá

                        Na prima dessa viola (bis)

 

Camin da Lapa eui / Caminn da lapa euâ...

Eu vim lá do sertão / Passei no Cambucá

Minha camisa molhou  / Eu coloquei pra enxugar

Camin da Lapa eui / Caminn da lapa euâ...

Camin da Lapa eui / Caminn da lapa euâ...

 

Meu bezerro zebu / todo sarapantado

Eu não tenho medo dele / Montado em meu cavalo

Meu cavalo é bom de sela / Meu cachorro é bom de gado

Mandei dizer a meu amo que reacertei o seu gado

Meu bezerro zebu, oi oí

Meu bezerro zebu, oi oi

 

Samba do Guará

O senhor me dê licença

Licença me queira dar

O senhor me dê licença

Licença me queira dar

Hoje é primeiro ano

O guará quer entrar

Hoje é primeiro ano

O guará quer entrar

O guará evém ioiô

O guará evém vadiar

O guará evém ioiô

O guará evém vadiar

Todo mundo me dizia que esse guará não saia

Todo mundo me dizia que esse guará não saia

O guará está chegando com prazer e alegria

O guará está chegando com prazer e alegria

O guará evém ioiô

O guará evém vadiar

O guará evém ioiô

O guará evém vadiar  (volta ao início)

Ô raposa, o que é guará

Ô raposa, o que é guará

Você tá chupano cana Dentro do canaviá

Você tá chupano cana dentro do canaviá

 

Zé de Vale

Quem vem lá sou eu

Quem vem lá sou eu

No abrir da cancela bateu

Zé de vale sou eu

Quem vem lá sou eu

Quem vem lá sou eu

A cancela bateu

Zé de vale sou eu

 

O Zé de Vale é um drama musicado, representado em praça pública, também encontrado em algumas cidades do Recôncavo da Bahia. Na versão de Barra do Pojuca, a história se passa na época do Brasil Império, onde um jovem de família muito rica se perde no mundo do crime e resolve afrontar e lei da Coroa, a lei do império brasileiro.  

O presidente da província, o que seria hoje o governador do estado, começa a caçar o Zé de Vale, que se torna um bandido muito perigoso, mas o governo consegue levá-lo à prisão sob autoridade do presidente da província.

Então a mãe vai procurar o presidente e oferecer várias coisas, vários cabedais como se dizia antigamente, em troca da soltura do Zé de Vale, mas nenhuma das ofertas é aceita.  Ela então apela para a Bandeira Real, aí entram os personagens do rei, a rainha e as duas princesas, com a bandeira do Império. Zé de Vale e a mãe então imploram segurando na bandeira e ele é solto por meio do perdão real.

 

Ô de casa ô de fora, vai lá ver quem é

De casa ô de fora, vai lá ver quem é

É passo na escada, parece de mulher

É passo na escada parece de mulher

 

Ó seu presidente Deus te dê bom dia

Ó seu presidente Deus te dê bom dia

Como tem passado vossa freguesia

Como tem passado vossa freguesia

 

Dona diga logo que veio fazer

Dona diga logo que veio fazer

Que o  presidente não tem tempo a perder

Que o  presidente não tem tempo a perder

 

Ó seu presidente que dinheiro vale

Ó seu presidente que dinheiro vale

Se vale mil reis solte o Zé de vale

Se vale mil reis solte o Zé de vale

 

Ô Sinha dona guarde o seu dinheiro

O sinhá dona guarde o seu dinheiro

Porque Zé de Vale é meu prisioneiro

Porque Zé de Vale é meu prisioneiro

 

Ó seu presidente que dinheiro vale

Ó seu presidente que dinheiro vale

Se vale três mil reis solte o Zé de vale

Se vale três mil reis solte o Zé de vale

 

Dona vá se embora que eu não solto não

Dona vá se embora que eu não solto não

O José de vale é um valentão

Matou muita gente lá no meu sertão

Da minha justiça não fez conta não

 

Eu tenho um bom cavalo na estrebaria

Tenho um bom cavalo na estrebaria

Pra seu presidente passear um dia

Pra seu presidente passear um dia

 

Também tenho o meu não quero o seu não

Também tenho o meu não quero o seu não

O José de Vale é um valentão

Matou muita gente lá no meu sertão

Da minha justiça não fez conta não

 

(samba)

Ô ioiô, ô Iaiá

 O seu Zé de Vale ioiô veio sambar

O seu Zé de Vale ioiô veio sambar

 

Seu Manoel o  que é que tem

Seu Manoel o  que é que tem

Viva o Zé de vale viva Deus

E mais ninguém

Viva o Zé de vale viva Deus

E mais ninguém