Desabafando com poetas e músicos

         



Por Eliecim Fidelis
Senhor, eis que um dia Te perguntou o poeta dos escravos “se é loucura ou se é verdade tanto horror perante os céus; onde estás que não respondes?”. De ponta a ponta, Senhor, vivemos horrorizados com a calamidade na terra. E o Brasil de Moraes Moreira, do Chuí ao Caburaí, continua descendo a ladeira; e para continuar eternamente deitado, vem alternando o berço esplendido por leitos de hospitais, ambulâncias, macas e corredores.

As filas dos “sem lenço sem documento” do auxílio emergencial estão servindo também para disputar as vacinas contra o Covid19. E essas estão escassas, pois as mães dos profissionais de imprensa pouco entendem de logística para achar com rapidez os vendedores.

Com isso, alongam-se os tentáculos famintos do vírus e suas mutações. Antes, era a velhice mais procurada, agora os jovens também caem na simpatia desse vírus traiçoeiro que não se sabe como chega, como afeta cada pessoa, quando vai embora, nem se vai sozinho ou agarrado à vítima.

Então, Senhor, “eu quero é Te dizer que a coisa aqui tá preta”. E quando foi escrito esse verso, ainda havia samba e muito futebol. Hoje, as arquibancadas silenciaram; sumiram os quebra-quebras de torcidas organizadas; sumiram os farofeiros sujando a areia da praia; sumiram os carros de som ligados às alturas em redor das barracas de esquinas.

O velho carnaval agora só em varandas e teletelas, mas mesmo assim nem pense que estarás livre de ter que perdoar os arrependimentos pós-folia, pois a galera dá sempre um jeito de vestir as fantasias e sair pro abraço nas aglomerações.

O São João do ano passado se foi, e estamos de novo ameaçados de perder suas fogueiras, licores e amores brejeiros movidos a sanfona pé-de-bode ou a bandas caras com letras de duplo sentido.

Nem a morte segue mais o ciclo natural. Defuntos são enterrados sem cerimônias e ritos, restando aos entes queridos lutos acumulados pela perda do parente, pelo medo e pela solidão.

Mesmo aqueles fiéis, Senhor, que rezaram antes e seguem em Tua busca no reino do céu, não vão subir com facilidade, pois, como diz o artista baiano: “se quiser falar com Deus tem que comer o pão que o diabo amassou; tem que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos”, e também das calças rasgadas e das camisas de saco.

E você, seu diabo, por que diabos precisa amassar tanto pão, tantos pepinos e abacaxis, para que esse povo tenha de viver empanturrado nesta guerra maluca, sem ao menos saber se “ao findar vai dar em nada, nada, nada, do que pensava encontrar”? Só pode ser para ficar tudo como o diabo gosta.

Mas, “pra não dizer que não falei de flores”, subscrevo trazendo “novo tom” à conversa, pois “no mundo ainda existem belezas que alegram a vida e nos fazem sonhar”. Tomara que esse lugar chegue o quanto antes. Oxalá, Senhor, “batam outra vez com esperanças os nossos corações”.
*O presente artigo foi atualizado e divulgado a pedido de alguns leitores.

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Escritor e psicanalista - fidelis.eli@gmail.com