Outras dimensões de Wagner e ACM Neto com Lula no jogo

         



Por Victor Pinto
A volta de Lula (PT) ao cenário político como um agente elegível a cargo público não mexe tão somente com a disputa pelo Planalto, mas com os diversos tabuleiros locais do xadrez eleitoral nos estados, principalmente na região Nordeste - que sustenta, aos trancos e barrancos, o quinhão petista e de esquerda do país.

Essa reorganização das forças políticas, que atrapalhou mais um movimento de terceira via do que o próprio bolsonarismo em si, tenderá a se arrastar pelo próximo ano. Os frutos das anulações das condenações, do aprofundamento do caso da suspeição de Moro (que se for candidato passará vergonha para o mundo) e o discurso de Lula repercutiram de tal forma que reavivaram o apagado anúncio do nome do senador Jaques Wagner (PT) para o governo da Bahia.

Quando o PT apontou a escolha pelo cacique, apesar dos partidos da base não terem - ainda - destacado seu nome para o posto, não empolgou. E, de fato, isso ocorreu, ao ponto de deputados da cozinha governista mencionarem em conversas informais. O petista só passou a ser cogitado com maior densidade para a disputa depois do discurso de Lula.

É sabido que a Bahia tende a ser vagão da locomotiva da nacional, como o senado é vagão do estado. O trem só passou a embalar agora. De tal forma que joga areia no caminhão netista, que nutria a esperança de um nome de centro pela terceira via que viesse rivalizar com Bolsonaro e impulsionar o nome de ACM Neto pelo Palácio de Ondina.

Neto se depara com um novo desenho e, creio, não menospreza o impacto da figura lulista. Desde que saiu da Presidência, Lula, ele próprio, não mais foi testado nas urnas e, apesar de João Santana ter dito no Roda Viva que o petista não precisaria mais de um banho de urna eletrônica para provar que ainda tem força, mensurar isso e não colocar isso na conta pode ser um erro estratégico.

Fugir, ACM Neto também não poderá. Dessa vez sua base precisa dele para ganhar ou para perder. A desculpa da prefeitura de Salvador não coloca mais e só teria como saída uma história de candidatura a vice-presidência, o que já teria sido descartada.

Como dizem os mais velhos da área: política é igual nuvem. Agora tá de um jeito. Amanhã tá de outro. Isso não serve só para Neto, como também para Rui e cia. Esse último, inclusive, tem visto ruir os sonhos de projeção nacional. Se buscar o Senado, vai deixar Otto desamparado. Vai ter que esperar mais um pouquinho.

O fator Lula mostra que o PT vive da síndrome de um homem só. Fechado neste conceito da persona, se não aproveitar essa sobrevida momentânea estará fadado ao fracasso ao não forjar nome tão forte quanto do seu criador. Wagner também bebe desta fonte apesar de nutrir o discurso da renovação política.

Difícil, creio, vai ser o bolsonarismo se enraizar nessa disputa e tentar crescer em solo baiano/nordestino. O fator Lula vai poder ajudar nas disputas regionais e essa queda de braço em seu favor é certa, vide as eleições de 2020. Wagner e Neto, polarizados, vão chegar em 2022 com um cenário digno de uma disputa que há tempos não víamos.
-------------------------
Jornalista.twitter: @victordojornal