Covid 19: nova variante ou nova ferida narcísica?

         



Por Eliecim Fidelis
A tradição cristã anunciada em Gênesis 1.26 apresenta o homem como um ser criado à imagem e semelhança de Deus. É ainda um ser abençoado, predestinado a dominar os animais do Éden e a conquistar as riquezas da terra. Por se sentir um ser amado por Deus, a crença na descendência divina imprimiu ao homem um status bastante privilegiado.
O geocentrismo da Idade Média levou o homem a encontrar na ciência a testemunha de que, além de ser uma criatura divina, a terra por ele habitada também era o centro em relação aos demais astros. Esse fato e outras conquistas da ciência de seu tempo contribuíram para reforçar sua posição de autoestima, aumentando seu orgulho, vaidade e sede de prestígio. Com o tempo, o homem passou a sentir-se todo poderoso, e até disputar o poder entre os semelhantes e deles servir-se explorando sexual e economicamente. O modelo de Ptolomeu, por ter sido simpático à Igreja Católica, fez com que a crença na centralidade da terra perdurasse por muitos séculos, só vindo a ser questionada a partir dos trabalhos de Galileu, no século XVII.
Mas no século seguinte chega Nicolau Copérnico fazendo um giro de cento e oitenta graus, e comprovando o heliocentrismo, ou seja: a terra não é o centro do universo como se acreditava, mas apenas um dos pequenos astros que giram em redor do sol. Temos aí o primeiro grande abalo no narcisismo da humanidade, como disse Freud.
A ciência continua avançando, ora a favor do homem, ora lhe dando rasteiras. E chega Darwin e publica A origem das espécies. Sua explicação sobre a origem do ser humano como sendo apenas o elo de uma cadeia da natureza representou grande revolução. Comprovando cientificamente, Darwin apresenta argumentos que vão de encontro à descendência divina estabelecida até então. Essa é outra lição que assustou e ainda assusta a vaidade humana, considerada o segundo abalo narcísico.
O grande susto darwiniano levou o homem a contestar, estrebuchar-se, espernear e clamar ao Senhor, mas ainda lhe restava o consolo do racionalismo cartesiano. “Cogito, ergo sum”. Penso, logo existo tornou-se a máxima que acompanhou o homem e a ciência moderna. Mas chegou Freud e proclamou o inconsciente: um lugar, diz a psicanálise, onde o homem existe justamente onde não pensa – eis a terceira ferida narcísica da humanidade: o homem não é senhor nem sequer de seu próprio pensamento. Impossível? Já lhe aconteceu querer dizer uma palavra e dizer outra sem querer? E sem querer ficar preso por dias a um pensamento intruso?
Pois bem, chega agora esse vírus e nos confronta e confronta a ciência e perturba a paz da humanidade. Quão pequeninos nos sentimos diante dele! Sentimo-nos nada, migalha de gente, incapaz, impotente, garrancho. Como disse Raul: com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar. Podemos falar em outra ferida narcísica ou apenas uma variante das anteriores?
---------------------
Escritor e psicanalista