ANDANTE CANTABILE

         



Por Martha Guedes
Enquanto observava através da tela verde da janela o horizonte árido onde se destacavam os pórticos dos dois cemitérios, o velho e o novo, além de uns montículos de barro enrijecido conhecidos como “mulungus”, pensava em terras longínquas, em cidades grandes, de ruas cheias de gente civilizada e automóveis brilhantes. Toda a imaginação tinha como fundo alguma música dos Beatles ou de qualquer outra banda inglesa ou americana das quais não importava saber o nome ou a letra da canção, a música era suficiente.

Os muros circunscreviam a vida. O regulamento e as imposições morais refreavam a alegria. E o olhar da menina percorria o caminho de volta, dos cemitérios e mulungus à colina onde a austera construção de inspiração puritana impunha-se à natureza agreste e pequenez intelectual dos que estavam além do rio - limítrofe da extensa área do colégio, das casas dos professores e dos internatos masculino e feminino.

Um dia, a menina ultrapassou a fronteira definitivamente e nunca mais voltou. Foi estudar na capital. A vida se tornou colorida, o sonho mesclou-se com a experiência. Visitou a maior cidade do país. E a música dos Beatles cedeu lugar à música dos festivais da canção, que cantarolava sem atentar muito ao conteúdo político da letra, porque mais importava no desenrolar do sonho a trilha sonora com o que ouvia das emissoras de rádio e do alto-falante do colégio durante os intervalos das aulas.

Tornou-se em figura irrequieta, um tanto hippie e outro tanto Belle de Jour, como a definiu um padre psicólogo e professor de modo nada sacerdotal. A jovenzinha namorou muito, curtiu muito e um dia se casou. Outro dia descasou. Padeceu e sonhou. Formada, trilhou por caminhos para os quais a academia não a preparou. Virou correspondente de revistas de navegação, tênis e arte. Da matéria dessas revistas nada sabia, com exceção da última, da qual alguma noção a universidade lhe dera. Redigia bem. Texto leve, rítmico, porque sempre precedido de música. Vinha a música, depois o texto.

Virou assessora de imprensa. Matéria estéril, experiência vã. Desvirou. Virou pesquisadora de documentos históricos. Não prosseguiu. Enfim, teve de render-se à formação acadêmica e virou professora. Nesse vira-vira, vieram os primeiros cabelos brancos. O brilho se apagou um pouco e a música arrefeceu. O sonho permaneceu. Ainda que as agruras fossem os muros que a contivessem.

Queria viajar. Viajou. Um mês na terra dos Beatles. Pouca emoção, nada como sonhara por trás da tela verde da janela. Outra vez, viajou. Dois meses, entre Cibeles, El Prado, El Corte Inglés, Alhambra, ruelas e Mesquita. Transpôs o Guadalquivir raivoso sobre a ponte e comeu a pior paella, rodeada por velhos marinheiros banguelas tornados em cozinheiros e garçons. Alcançou o último degrau na Sagrada Família. Contemplou a exuberância de Gaudí nas Ramblas. E comprou um busto de Beethoven no Palácio da Música Catalã.

Subiu e desceu colinas de Roma, viu por ver o Papa, alimentou-se de Bernini, Borromini, Michelangelo, pasta, sorvete e vinho. Tentou achar o retângulo áureo na fachada de Santa Maria Novella. Ajudada por galante cavalheiro, chegou à escadaria da Biblioteca Laurenciana e apaixonada ficou. Presenciou o nascimento de Vênus. Por muita emoção e arte quase desmaiou.

Andou muito mais pelo mundo, pois o sonho não acabou. Nem a música. Sobre isso, conto depois.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura