De Babilônia à Jerusalém sonhada

         



Por Martha Guedes
Grandes cidades sempre me fascinaram. Sonhava com elas quando ainda vivia na cidadezinha do interior e vislumbrava a altivez multicolorida dos edifícios, a trama intricada de ruas e viadutos, ouvia o barulho dos automóveis e, até mesmo, aspirava o ar poluído que a tecnologia daquele tempo deixava expelir dos carburadores. Imaginava. Remota era então a possibilidade de transitar pelas ruas dessas megalópoles.

Não havia lugar na imaginação para qualquer dos problemas que afetam as grandes cidades porque nenhum conhecimento deles eu tinha. A cidade sonhada era o cenário cinematográfico glamuroso em que se movimentavam homens e mulheres bonitos e bem-vestidos. Mesmo quando fui viver na capital - provinciana e maltratada - sequer me preocupavam esgotos a céu aberto, congestionamentos de trânsito, precariedade de moradia, criminalidade e feiura de qualquer espécie. Tudo era ofuscado pelo sol radiante, que me fazia trocar a mesa de estudo pela toalha de praia e a preocupação com os temas do vestibular pelas novidades de que eram arautos as figuras badaladas do oba-oba cultural. Até o céu se tornar plúmbeo e a toalha de praia não mais ser acessório da escassa indumentária.

O amontoado de casebres nas adjacências dos bairros da classe média passou a integrar o ambiente em que a minha vida, por vezes sofrida, se desenrolava. A poluição dos automóveis, sobretudo dos ônibus superlotados de gente suada, cansada, triste e mal-educada tornou-se em algo rotineiro na vivência e observação cotidianas. Veio o desejo romântico do campo, de vaquinhas pastando, galinhas cacarejando, fogão a lenha e tudo mais que a imaginação ainda destituída de substrato exequível pudesse compor. Utopia. Jamais trocaria o chuveiro elétrico pela água descendente da cachoeira e a diversidade do supermercado pela exiguidade da quitanda.

A grande cidade, conquanto desalinhada, suja e malcheirosa é o meu habitat. Sobre ela passei a meditar e, de outro modo, sonhar. Sonho em transformá-la, sabendo que me faltam os meios necessários e a habilidade em torná-la habitável. Sonho, ainda assim. Planejar a cidade sempre foi algo sonhado, mais sonho que realidade. De sonho foram as idealizações renascentistas - traçados lineares ditados pela geométrica representação do mundo - regularidade rítmica inspirada pela avidez de conhecimento da natureza. Exceto raras e incompletas realizações, tudo ficou no papel.

De muitas formas pode ser considerada a cidade porque ela é multiforme. É uma hidra, da qual renascem as cabeças logo que cortadas. Nenhum Hércules do planejamento urbano consegue vencê-la. O mal, entretanto, pode ser minorado, a vida pode se tornar mais leve, a paisagem urbana mais bonita e as pessoas, consequentemente, menos infelizes. É ver a cidade como um todo e por partes. Como um organismo, as partes se relacionam com o todo e vice-versa, são interdependentes. É reconhecer a incapacidade de propor um modelo ideal. O planejamento ideal é utópico. Não há mais por que buscar reproduzir na Terra a Jerusalém do Céu como no passado. No mundo quase apocalíptico em que vivemos não podemos nos abster de reconhecer a diversidade. Que a tecnologia e o bom senso auxiliem os planejadores nessa árdua tarefa de apreender o particular e nele atuar, e o geral, e dele não se perder.

Quanto a mim, sonho agora com jardins. Anseio pelo verde. Ressinto-me da aridez das nossas cidades e suspiro pela colombiana Medellín (parte dela, pelo menos) e neozelandesa Wellington, para citar duas cidades do hemisfério sul que visitei. A pandemia acentua essa necessidade de ar puro, clorofilado. Quero o Paraíso perdido, embora saiba que reavê-lo é puro sonho. Mas, continuo a sonhar.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura