Do sórdido ao sublime

         



Por Martha Guedes

(A Tito Schipa, meu gato, a quem sempre quero dar – mas não consigo – uma boa chinelada)

- Gosto de bares decadentes – disse-me pelo Messenger o amigo do Facebook. Intelectual e sensível, como percebi desde que li um dos seus textos, logo o imaginei à mesa tosca e engordurada não exatamente de um bar paulistano, mas de uma taberna qualquer na viela sombria de uma cidade medieval. Farelos de pão espalhados sobre a mesa, papel e pena e a complacência do taberneiro para com o frequentador assíduo, que o chama a cada copo esvaziado.

A comunicação entre mim e ele resumiu-se a frases curtas, perguntas e respostas em estilo telegráfico. Longa era a tarde de domingo e curta a perspectiva de preenchê-la com algo interessante depois que o interlocutor despediu-se: - Garçom, mais um copo, por favor!

Fui aos livros. Ultimamente, tenho lido vários ao mesmo tempo, o que me dá a sensação de que não leio, de fato, nenhum. Empoeirado e um tanto desgastado, estava logo à mão o livro de poemas de François Villon, há muito sem manuseio. Não foi por acaso. Venho supondo que um certo diabrete, Titivillus, muito conhecido e temido pelos monges copistas da Idade Média, esteja frequentando meu apartamento. Tudo quebra, tudo emperra, livro desaparece, teclado virtual não atende à digitação... A pestinha, desde que o livro deixou de ser manuscrito, não tem encontrado trabalho. Antes, fazia o monge esquecer de copiar uma ou outra letra. E derramar o tinteiro sobre a página, arruinar uma capitular ou uma iluminura. Mas teve de se reciclar. Agora, o território de ação é o home office - o computador, telefone celular, iPad e afins. Para não perder de todo o costume, esconde livros.

(À espera de François Villon, parodiando meu amigo)

- Taberneiro, mais vinho, por favor!

Você talvez tenha se esquecido ou mesmo não saiba quem foi François Villon. Tudo bem. Ele não é tão conhecido por aqui. Vou lhe confessar uma coisa: embora seja formada em História e tenha assistido a muitas aulas sobre a Idade Média, nunca ouvi nem li sobre o poeta. Há poucos anos o conheço e não muito bem. Não me envergonho, pois até os que lhe estudam a obra não o conhecem bem. Vamos tirá-lo por um pouco da bruma, então.

François Villon nasceu como François de Montcorbier, ou des Loges, em 1431, como se pode ver em documentos. Ainda menino, órfão de pai, passou a viver sob guarda de um cônego, Guillaume de Villon, e foi criado e instruído segundo o parâmetro educacional da época, que era o da Escolástica. Só para lembrar, a Escolástica foi um sistema de aprendizagem surgido e quase exclusivamente desenvolvido nos mosteiros medievais, portanto, tinha base cristã e sobre ela se estruturou o método de raciocínio dialético, racional, herdado da Grécia clássica. As universidades nascem da Escolástica. Os professores eram membros do clero e a Igreja a tudo controlava. Nesse ambiente de conciliação do paganismo grego com a doutrina cristã, Villon estudou e chegou a adquirir o título de Bacharel em Artes pela Universidade de Paris.

- Não, não era artista. Artes, no sistema educacional escolástico, eram as artes liberais constituídas pelo trivium – gramática, retórica e lógica – e pelo quadrivium – aritmética, geometria, astronomia e música. Eram fundamentadas na filosofia aristotélica. O jovem François submeteu-se a todos os exercícios pedagógicos que seriam hoje absurdos, verdadeira tortura, para qualquer estudante. Teve de entender o que estava escrito - e reconhecido como modelo - pelos caminhos da lectio, mergulhando na gramática, da littera,  produzindo o texto, do sensus, dando ao próprio texto sentido lógico, até chegar à sententia e demonstrar a apreensão do conteúdo da ciência e do pensamento, no texto modelar penosamente ruminado.

O historiador Jacques Le Goff, entretanto, refere-se ao ouvido vadio de Villon, nas aulas da Sorbonne, interessado mais no som cavernoso das palavras do que nas regras às quais estava ainda prisioneiro o ensino, em tempos então modernos da Escolástica.

O rapazinho já demostrava o que seria: satírico e vagabundo poeta das vielas sujas, das amantes pouco louváveis, mas livre e brilhante. Quase o enforcaram pelo assassinato de um clérigo em uma briga de rua. Foi absolvido. Cumpriu mais de uma vez sentença de prisão por roubo. Depois sumiu. Não se sabe aonde foi nem como e onde morreu. Acredito que esteja encantado. Certo é que virou lenda. Na sordidez da vida o acudiram as musas e tornou-se em um dos maiores poetas medievais, talvez o maior da Escolástica.

Dentre a vasta obra poética de Villon, ressaem o Legado e o Testamento. Preciosista quanto à arquitetura das estrofes em oitavas octossilábicas, institui um rol caricatural de legatários, aos quais não poupa da mais ácida ironia. Assim, não lhe escapam os inimigos, as instituições, as autoridades do clero universitário, o método escolástico, a nobreza, a usura e o mau uso do dinheiro e tantos outros males da sociedade. Vai do patético lírico à grosseria. Em todo esse percurso, o ritmo metálico ora suave ora mais agressivo, dá ao verso sonoridade realçada pelo jogo fonético. Nesses versos, travestidos às vezes de amorosos jograis, Villon alude ao que é na verdade um roubo, um ato criminoso disfarçado, dos que marcam a trajetória nada exemplar do autor.

Mas...

“Sou pecador, sei muito bem;
Deus não quer, porém, minha morte,
Mas converter-me para o Bem,
Ou a quem o pecado morde.

...

Mesmo se o nobre Roman de la Rose
Diz e conclama em plenitude
(Nas primeiras linhas se pouse)
Que a um coração na juventude
- Sábio só na senectude –
Perdoa-se tudo, é verdade:
Quem me fere com acritude
Não me quer na maturidade".

Perdoemos, nós também.

- Titivillus, comporte-se. Não derrame vinho sobre o meu iPad. Preciso enviar este texto hoje mesmo para o jornal!
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura