Rastreamento de câncer de pulmão é indicado para pacientes com risco elevado de desenvolver a doença

         



A cantora Rita Lee (74) foi diagnosticada com um tumor no pulmão esquerdo no último dia 20, após passar por exames de rotina em São Paulo. Com histórico de câncer na família, ela chegou a retirar as mamas em 2010, como forma de prevenção de um possível câncer de mama. Como não apresentava sinais nem sintomas, o rastreamento foi fundamental para a descoberta. Fumantes ou ex-fumantes e pessoas que apresentem outros fatores de risco da doença, com idade entre 50 e 80 anos, devem conversar com seu médico sobre os riscos de desenvolver o tumor, além de avaliar benefícios e malefícios de passar por exames que possam ajudar a descobrir a doença latente ou em estágio precoce. 

 

Esta foi a recomendação recente da Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF, na sigla em inglês) que, baseada em evidências científicas sólidas, publicou uma recomendação no Journal of the American Medical Association (JAMA) sugerindo que fumantes ou pessoas que pararam de fumar há menos de 15 anos façam anualmente uma tomografia computadorizada de tórax com baixa dose de radiação para rastrear o câncer de pulmão. Entretanto, “por haver riscos ligados à investigação, a decisão de fazer ou não esse exame deve ser discutida entre o paciente e o médico”, sugeriu a oncologista Samira Mascarenhas, integrante do grupo “Mulheres na Oncologia”.

 

Tabagismo - O câncer de pulmão é o segundo mais comum em homens e mulheres no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), é o primeiro em todo o mundo desde 1985, tanto em incidência quanto em mortalidade. Cerca de 13% de todos os casos novos de câncer são de pulmão. Devido à redução do tabagismo, a taxa de incidência vem diminuindo desde meados da década de 1980 entre homens e desde os anos 2000 entre as mulheres. Em cerca de 85% dos casos, o tumor está associado ao consumo de derivados de tabaco. 

 

De acordo com Samira Mascarenhas, o tabagismo e a exposição passiva ao tabaco são importantes fatores de risco para o desenvolvimento da doença, mas “também é preciso considerar a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), fibrose pulmonar; exposição à poluição do ar, infecções pulmonares de repetição, história familiar de câncer de pulmão ou de alguns outros tipos de câncer e contato prolongado do paciente com alguns agentes, como urânio, cromo, radônio, asbesto e sílica”, elencou.

 

Os sintomas geralmente não ocorrem até que o câncer esteja avançado, mas algumas pessoas com câncer de pulmão em estágio inicial podem apresentar sintomas como tosse persistente, escarro com sangue, dor no peito, rouquidão, piora da falta de ar, perda de peso e de apetite, pneumonia recorrente, bronquite, cansaço ou fraqueza. Nos fumantes, o ritmo habitual da tosse é alterado e aparecem crises em horários incomuns. Para evitar a doença, é importante não fumar, evitar o tabagismo passivo e a exposição a agentes químicos.

 

Diagnóstico - A detecção do câncer de pulmão pode ser feita por meio da investigação com exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos de pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença ou por meio de exames periódicos em pessoas sem sinais ou sintomas, mas pertencentes a grupos com maior chance de ter a doença. Raio-X do tórax e tomografia computadorizada são os exames iniciais para investigar casos suspeitos. A broncoscopia (endoscopia respiratória) geralmente é feita para avaliar a árvore traquebrônquica e, eventualmente, permitir a biópsia (retirada de pedaços do tumor com uma agulha para exame). Uma vez confirmada a doença, é feito o estadiamento, que avalia o estágio de evolução, ou seja, se a doença está restrita ao pulmão ou disseminada para outros órgãos. O estadiamento é feito através de exames como biópsia pulmonar guiada por tomografia, biópsia por broncoscopia, tomografia de tórax, ressonância nuclear, PET-CT e cintilografia óssea, entre outros.

 

Tratamento - O tratamento do câncer de pulmão requer a participação de um grupo multidisciplinar, formado por oncologista, cirurgião torácico, pneumologista, radio-oncologista, radiologista intervencionista, médico nuclear, enfermeiro, fisioterapeuta, nutricionista e assistente social. Para os pacientes com doença localizada sem linfonodo (gânglio) aumentado (íngua) na região entre os dois pulmões (mediastino), o tratamento é cirúrgico, seguido ou não de quimioterapia e/ou radioterapia. Para aqueles com doença localizada no pulmão e nos linfonodos, o tratamento é feito com radioterapia e quimioterapia ao mesmo tempo.  Em pacientes que apresentam metástases, o tratamento é com quimioterapia ou, em casos selecionados, com medicação baseada em terapia-alvo.

 

“O tratamento, que depende do tipo histológico e do estágio da doença, precisa ser, necessariamente, personalizado”, disse Samira Mascarenhas, uma das autoras do artigo científico “Perfil genômico abrangente de pacientes brasileiros com câncer de pulmão de células não pequenas”, publicado este ano na Revista Thoracic Cancer. Com foco na caracterização do perfil molecular de câncer de pulmão no Brasil, o estudo, disponível na língua inglesa (no site www.onlinelibrary.wiley.com), se destaca entre muitas outras pesquisas que abordam a diminuição da incidência e mortalidade por câncer de pulmão nos últimos anos.