Por quem espera a linda Bess?

         



Por Martha Guedes
As meninas do condomínio brincam lá fora. Ouço as palavras “rainha” e “palácio”. Estão tentando criar uma história de reis e rainhas e uma delas se refere à Rainha Elisabeth. O que dizem sobre a vida palaciana não parece provir do livro de histórias, mas do noticiário da televisão.

Tive poucos livros de histórias na infância. Papai às vezes me trazia alguns quando voltava das constantes viagens à capital. Mas, eram quase sempre biografias romanceadas de personagens históricos com ilustrações em preto-e-branco. Lembro-me de uma delas, em que o abolicionista Silva Jardim, segurando ainda o cabo do guarda-chuva, caía miseravelmente na cratera de um vulcão. Fiquei horrorizada. Via a expressão de desespero do infeliz, com as chamas a lamber-lhe os pés, e tentava em vão acalmar-me e dormir. Agradecia a Deus por viver num país sem vulcões.

Um belo dia, Papai me trouxe um livro colorido, a história de uns anõezinhos, que entraram furtivamente numa casa e se esbaldavam em destampar potes de doces, derramar mel sobre a toalha de mesa, transformar a pia do banheiro em piscina e outras mais travessuras próprias de anõezinhos. Li inúmeras vezes o livro. Acordava cedo e corria a folheá-lo. Passei a fazer parte da história, com irrestrita anuência das criaturinhas.

Havia um recurso à supressão da escassez bibliográfica de lá de casa. Era a coleção de livros infantis de Monteiro Lobato, pertencente ao Grupo Escolar. Aos poucos, li os mais atraentes, que me emprestava bondosamente Dona Isaura, a vice-diretora. Empréstimo garantido por minha boa reputação como aluna e pelo fato de ser filha de uma das professoras, a temível Dona Cora, horror dos meninos não muito afeitos à disciplina. O livro era cuidadosamente forrado e lido com a reverência de quem manuseia um papiro raro do Antigo Egito.

Por aqueles dias, lançaram uma edição de O Mundo da Criança. Mamãe falou em comprar, mas não comprou. Outra alma piedosa acudiu-me dessa vez. Dona Adélia, professora e vizinha, emprestou-me os volumes de contos e poemas da coleção. Os contos eram os tradicionais, bem ilustrados e traduzidos. Os poemas, desconhecidos. Poema não era gênero muito do meu agrado, fazia-me lembrar reprimendas e beliscões quando me esquecia de “administrar” o fôlego ante uma vírgula ou “engolia” parte de um verso. Essa era a tortura que antecedia as comemorações cívicas, da qual não tinham ideia os pequenos delinquentes das regras gramaticais sob a fraca tolerância de Mamãe. Eles não sabiam do que eu duramente experimentava no recesso do lar.

Do volume de poemas, por desígnio de alguma fada não muito confiável, surgiu a minha primeira paixão. Enamorei-me do personagem. Por ele sofri e ainda hoje sofro. Antes, quero situar no ambiente ilustrado a narrativa. Nada sei sobre o autor do desenho. Nem sobre quem compôs o poema. Tudo o que disser provém da memória, há muito esmaecida. Imagine, então, um cenário típico de um romance medieval. Há de ter balcão, noite de luar, trovador. Se quiser, acrescente um castelo, mas o ponha à distância. Uma cavalariça cai bem. Não hesite em colocar aqui e acolá umas galinhas, patos e gansos talvez. Um cachorro. Um monte de feno. Rural demais? Não se preocupe, está conforme ao drama. Desenhe agora a estrada e a estalagem. Pinte tudo com tons sutis de azul e ocre. Uma pincelada de rosa, bem suave. E branco, ligeiramente prateado.

Tudo pronto? Vamos ao que lhe posso contar desta linda história de amor:

A moça é Bess, a filha do Estalajadeiro. Delicada como a rosa, pálida como o luar. Do balcão, ela olha ansiosa a estrada. Ouve o tropel. Nuvem de poeira ao longe vê.

Delicado não é o Estalajadeiro. É forte. É rude e carrancudo. Bess o teme. Ele a vigia. Bess suspira. Brilha no céu a lua, brilho mortiço. Bess sente frio e fecha a porta. Dorme e ronca o Estalajadeiro.

Dos ramos da árvore sai o assobio. Ninguém ouve porque é suave. É Bess quem ouve e se inclina sobre o gradil. Estende a mão. Alguém a beija. E salta. Todos dormem. Será que dorme o Estalajadeiro?

O raio de sol deixa ver a face do Salteador. Como é belo o longo cabelo da cor do luar! Ele deve partir. Bess suspira. E chora.

O sol aquece a vida em redor. A galinha cacareja, o cavalo escoiceia e a flor desabrocha. A porta da estalagem se abre ao viajante. Bess ajuda, serve à mesa. Contente está. Espera a noite que logo vem.

E chega a noite de límpido céu. Bess espreita a longa estrada. Tudo se cala. A noite é calma. Bess atenta ao assobio. O som é outro, ríspido e cortante. E Bess o vê: é pálido e belo o Salteador. Na alva camisa, emerge rubra a alma da rosa. E rubra é a lua, que se esconde atrás da nuvem.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura