Sonho

         



Por Martha Guedes
Meu amigo, aonde me levas? Por que tiras de mim o sossego? Durmo há séculos um sono de pedra, por desígnio de mau encantador a quem devo silente vassalagem. Tu me queres liberta do sono, mas que hei de fazer do que sonho? Onde, pois, deixarei meu tesouro de imagens mil acumulado? Preciosas são as lembranças que o meu baú encerra - de desejo e ilusão.
Se me levas a ver as escarpas que talhou, indômito, o vento na planura bravia do sertão, eu te peço, Cicerone amoroso, que me leves primeiro à serra, esculpida em contornos suaves, da pequena cidade onde nasci. De lágrimas molhou-se o meu tesouro porque choro as nascentes que perdera, de Ouro e Prata nomeadas, onde em alva se tornava a roupa que lhes traziam a lavar de manhã. Choro a veste de verde esplendente em trapos hoje transformada.
Faze-me ouvir o canto das avezinhas que em trevas prenunciam a aurora. Sentir o frescor do vento, o calor do sol matinal e o som do trabalho que se inicia, a comemorar moto continuo a vida. Na densa escuridão do sono que a tua clara luz dissipa há de renascer, amado meu, o dia.
Se me acordas, abro-te o peito como um sésamo à ordem sonora. Devassa-me a alma. E revela da pedra o segredo que há muito se lhe gravou. Entrarás, então, em meu sonho. E juntos a sonhar desvendaremos do céu a imensidão.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura