O MP baiano e a eclosão do ovo da serpente

         



Por Victor Pinto
As dores do Ministério Público da Bahia chamam atenção por sua sanha perseguidora contra uma categoria classificada como essencial pelo próprio governo federal e que não parou, em momento algum, durante a pandemia do novo coronavírus. Pelo contrário, dobrou sua carga de trabalho e esteve na linha de frente para esclarecer e narrar os fatos à população. Informar é prevenir.

Não é a senhora procuradora geral do MP, Norma Cavalcanti, no frio do seu ar-condicionado, gestora da questão, que está na porta dos gripários da capital mostrando as filas, muito menos para fiscalizar a atuação pública (às vezes a denúncia feita na imprensa tem a solução mais célere do que pela próprio rito burocrático do MP). Não será a douta e os seus que concordam com sua atuação desproporcional que estão nas ruas para mostrar protestos do povo, mostrar os ônibus ou o metrô lotados, o funcionamento da vacinação ou dos hospital de campanha…

O Ministério Público baiano, pelo visto, é um “tigrão” descabido quando se trata de querer barrar uma medida que já tem sido adotada por diversos Estados do País: a aplicação das doses nos operários chão de fábrica da notícia. Quem está na linha de frente é o trabalhador de carteira assinada, é o assalariado, é o que precisa tocar a cobertura para sobreviver.

Argumentam não ser o jornalista integrado ao Plano Nacional de Imunização (PNI). Mas, vejamos: decreto 10.288, de março de 2020, do presidente Jair Bolsonaro: define as atividades e os serviços relacionados à imprensa como essenciais. No mesmo PNI, nos objetivos de prioridade de vacinação existe a seguinte justificativa: “há intenção de oferta da vacina COVID-19 a toda a população brasileira, de maneira escalonada considerando primeiramente a proteção dos grupos vulneráveis e a manutenção dos serviços essenciais” (SIC). O jornalismo é serviço essencial! Tá claro! Cristalino!

O MP perdeu no Tribunal de Justiça a tentativa de barrar a vacinação e, inconformado, recorreu ao Supremo Tribunal Federal, cuja reclamação ainda não fora analisada pelo ministro Dias Toffoli até os escritos deste texto.

Faço minhas as palavras do presidente do sindicato dos Jornalistas da Bahia, Moacy Neves - o qual rendo todos os elogios possíveis por sua atuação - quando, em uma entrevista que me fora concedida na Piatã FM, falou algo certeiro: se os jornalistas, de agora em diante, forem acometidos pela Covid-19 e morrerem, a culpa é de quem segurou a vacinação. Os culpados terão nome e endereço.

A Covid-19 mata um jornalista por dia no Brasil, conforme dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Na Bahia, conforme levantamento do Sinjorba, mais de 350 jornalistas contraíram a doença desde o início da chegada da pandemia no país.

Esperemos o desenrolar dessa perseguição. Agora nós, jornalistas, deixamos eclodir o ovo da serpente ao darmos uma legitimidade exacerbada à atuação dos nobres promotores. Vale uma autocrítica da categoria que cobre política e justiça, principalmente. A Vaza Jato, no cenário nacional, nos mostra a prova.

Um adendo: no popular, "do nada, nada" só espero de camarote futuras fases da Faroeste, pois um certo novelo já teve o primeiro fio que bateu na porta do digníssimo MP baiano puxado… veremos.
--------------------------------

Jornalista// twitter: @victordojornal