Çatal Höyük: por onde deciframos a nós mesmos

         



Por Martha Guedes

Quando pensamos em pré-história, logo nos vêm à imaginação homens barbudos e mulheres desgrenhadas, vestidos de pele e abrigados em cavernas. Num background semelhante ao dos Flintstones, onde não faltam dinossauros e gigantescas plantas carnívoras, ambientamos os nossos rústicos ancestrais, sem lhes darmos nem ao menos direito à comunicação inteligível. Não me refiro, é óbvio, aos arqueólogos, paleontólogos (que estudam os fósseis), aos naturalistas e a todos aqueles que, por força da profissão ou por imposição acadêmica, são induzidos a compor de modo mais complexo o cenário edênico ou demoníaco - para os amantes da vida civilizada - dos tempos iniciais das associações e realizações humanas. Sem pretensão científica, gostaria de contar um pouco da história de um lugar distante na geografia e no tempo, um sítio arqueológico conhecido como Çatal Höyük (ou Hüyük), localizado na Anatólia, região da Turquia.

Çatal Höyük é uma área de pesquisa arqueológica situada nas imediações da cidade de Konya, onde habitaram, há nove mil anos, aproximadamente oito mil pessoas, que viviam numa espécie de cidade sem ruas e sem veículos. Como é possível conceber uma cidade assim? Vamos lá: imagine um amontoado de casas de adobe, que é um tipo de tijolo secado ao sol, muito usado em nossas construções do passado colonial. No Brasil, ainda hoje se constrói com adobe nas áreas rurais, sobretudo do Nordeste. Imagine casas retangulares, com paredes rebocadas com barro e de teto plano, formado pelo entrelaçamento de canas e cobertura de palha. Casas em disposição escalonada, sobrepostas umas às outras. Agora, as ruas. Como seriam? Imagine escadas. Sim, as escadas funcionavam como ruas! O teto de uma casa tornava-se em pátio para a que estava acima dela, se você considerar a inclinação do terreno. Entre na casa. Um desnível no piso seria a cama? Pense no teto com abertura e posicione aí uma escada interna. Disponha objetos de cerâmica, utensílios feitos de pedra e estatuetas. Há relevos e pinturas nas paredes, certo? Inclua um forno. Mais de um, até. E nichos.

Pois bem: esses achados arqueológicos vieram à luz pela primeira vez nos anos 1960, escavados por James Mellaart, um arqueólogo britânico, que era professor universitário em Ancara, capital da Turquia. O lugar se tornou famoso pelo tamanho do assentamento, densamente ocupado. Desde 1993, um grupo de arqueólogos de vários países e instituições acadêmicas tem trabalhado no local. Cada vez mais, a vida daquelas pessoas se torna menos misteriosa - os hábitos alimentares, o modo como tratavam os mortos, que eram enterrados no chão das casas, as crenças, a habilidade técnica em produzir instrumentos de uso doméstico, de trabalho agrícola e de guerra. O clima local favoreceu a preservação de partes da estrutura arquitetônica e dos objetos encontrados.

Movida pela curiosidade, alimentada em anos de ensino de história da arte, resolvi visitar o sítio arqueológico. Os trabalhos estavam suspensos. Percorri um longo caminho desde Göreme, na Capadócia, até Konya. A visita tinha de ser rápida, pois deveria voltar pela mesma estrada até a cidade de Nevsherir, o que significava um percurso de ida e volta de pouco mais de seis horas, e tomar o avião para Istambul, no final da tarde. Valeu, apesar da pressa. Çatal Höyük é tido como um dos primeiros centros urbanos do mundo (7.400 anos antes de Cristo) e foi com emoção, indisfarçável para o motorista e o guarda local, que entrei na casinha, reconstituída rigorosamente segundo o que revelaram os vestígios arquitetônicos desenterrados. Vi todos aqueles objetos de uso diário, que você há pouco imaginou, como cestas e pilões, cereais pendurados nas canas do teto, escadas que dão acesso ao interior da residência pelo teto e, dele, para o exterior. Tudo estava disposto de modo a nos levar a identificar, nas áreas escavadas, cobertas por ampla abóbada metálica, o interior das casas: pequenos celeiros para os grãos, fornos, nichos, locais de culto e de sepultamento, além de pinturas murais. Muitos desses vestígios foram representados na casa-modelo.

Há um pequeno museu no local, organizado de modo didático, com fotos interessantes dos trabalhos de escavação, reconstituições de pinturas, relevos e alguns objetos em cerâmica e pedra, retirados pelos arqueólogos. O objetivo principal da pesquisa tem sido relacionar o simbolismo contido nessas pinturas ao contexto social e econômico dos habitantes do assentamento neolítico, que parece ter sido bem maior do que é a extensão conhecida. Possivelmente, havia um intercâmbio econômico e cultural com outros povoados da região, estabelecido em rotas comerciais.

Muito mais deveria contar. Como lhe disse, o tempo foi curto e o meu conhecimento, admito, limitado. Alonguemos, então, a imaginação. Ela, sem dúvida, nos guiará no esforço por reconhecermos a nós mesmos - de onde vieram nossos usos e costumes, formas de relacionamento, crenças, anseios, enfim. Nas camadas de casas sobrepostas de Çatal Höyük podemos entender que não mudamos em essência, apesar do que obtivemos em realizações mentais e materiais.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura