Tô nem aí do sistema ou vicissitudes da velhice?

         



Por Eliecim Fidelis
Mesmo com alguma diferença de idade, os dois sabem que formam um casal de velhos. Ou, como dizem os amigos: da melhor idade, desde que longe dela. À medida que os sistemas tecnológicos e os aplicativos modernizam-se exigindo mais jeito e perspicácia juvenil, a agilidade mental lhes escorre pelos dedos pelancudos. Ela até que é safa, mas ele não saca muita coisa. Queriam ter tempo para as sonhadas viagens ou praticar a arte preferida, desejo sempre adiado. Não se preocupam mais com as metas ambiciosas das empresas onde trabalhavam, mas também não usufruem do ócio criativo esperado da aposentação. Deixaram de trabalhar para as empresas que lhes pagavam, mas passaram a trabalhar de graça para as entidades que lhes transferem os serviços que tem a obrigação de prestar.

Ao saber que a amiga recebeu a restituição, ela chegou com a notícia:
– Caímos na malha do Leão.
– Deixa que eu vou lá um dia deste.
– Não! Só resolve no ecaque.
– É o quê? Caque com q ou com k?
– Ah, isso eu não sei. Pera! O Felipe mandou o passo a passo pelo zap; vou ler; diz assim: entrar no portal e-CAC (viu como é?), clicar em ‘Legislação e processo’, depois clicar em ‘e-processo’.
– É o quê?
– É o ezinho que diz que a coisa é virtual; tá dizendo que o processo é pela internet.
– Mas nós não temos processo, só precisamos mostrar o comprovante.
– Ah, deixa eu acabar de ler: clicar em ‘Abrir dossiê de atendimento’, preencher o DDA; clicar no ícone de interrogação e copiar o código; voltar para o portal e-CAC e criar o dossiê colando o código da UA. Pronto, agora você gerou o dossiê digital e pode juntar o documento. Entendeu?
– Eu? Viajei nos ícones e siglas; daquela vez, anos atrás, fui lá pessoalmente e resolvi tudo; e ainda pude usufruir da beleza daquele prédio alto, granito brilhante e frescor ambiental de dar inveja.
– Vou tentar... Entrei no portal mas estão pedindo o código de acesso.
– Como assim, não disseram que o código é para criar o dossiê?
– Sei lá... Ih! A internet caiu.
– De novo?

Ela ligou do fixo para a operadora. A máquina de lá confere os dados e responde: fizemos uma atualização aqui e talvez demore um pouco. O tempo passa. Ela volta a ligar, desta vez para tentar falar com um ser humano. Lá pela sétima ou oitava opção, conseguiu ouvir uma voz doce e compreensiva:
– Como posso ajudar, senhora? Retire o aparelho da tomada; retire o cartão de memória; faça isso, faça aquilo; se o serviço não voltar a funcionar marque uma visita técnica pelo aplicativo ou volte a ligar. Posso ajudar em algo mais, senhora? Favor aguardar na linha para avaliar nossos serviços. A operadora agradece a ligação.
Olhando-o taciturnamente, ela disse baixinho:
– Só quando o Felipe chegar de viagem...
Ele maneou a cabeça com os lábios cerrados e lembrou:
– E as contas de luz, gás e telefone não chegaram.
– Não chegam; tem que pegar na internet.
– Estamos sem internet.
– E o licenciamento do veículo?
– Não mandam mais.
– E o CRLV?
– Também não mandam.
– Ninguém manda mais nada!
– E ainda ter que guardar tanto login, tanta senha...
– É a modernidade cheirando economia nas costas da gente, em nome da ecologia e da tecnologia.
– Merda de modernidade!

Cansada, e sem poder falar com seus grupos do zap, ela recosta no sofá e cochila.
Ele a olha por baixo dos óculos dourados e começa, de leve, a acariciar as rugas de sua testa.
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Escritor e psicanalista