Happy Hour

         



Por Martha Guedes
- Ei! O que veio fazer aqui no meu texto? Quem é você?
- Gargântua, Martha. Não me reconhece?
- Não me diga! Há quanto tempo! Por onde tem andado, meu amigo?
- Por lugar nenhum além da prateleira. Puro tédio.
- Pelo aspecto, dá pra ver: empoeirado, amarelado, com furos de traça por toda a roupa. Que lástima, Gargântua!
- Saudade dos tempos das feiras, da alegria de ficar pendurado no cordel e ser visto e manuseado – e lido -, é claro!
- Como você me encontrou?
- Há dois dias, estava adormecido ali, na estante, quando de súbito acordei. Você me puxou e me colocou sobre a mesa. Nem se deu ao trabalho de me achar entre as folhas rabiscadas do volume que um dia comprou num sebo virtual. Que diabos você queria de mim? Por que não me deixou dormir por mais uns dez anos? Resolveu, de repente, sair da inércia intelectual?
- Tem razão. Venho passando ao largo da estante. Melhor dizendo, do que restou da estante. A aposentadoria me fez íntima do aspirador de pó, do esfregão e dos potinhos de ração para gatos. Agora, tento me reabilitar, mas penso que não posso abrir mão ainda do tira-ferrugem. A mente requer uma faxina completa. Eis a razão de não saber como preencher esta página do Word.

(Gargântua senta-se pesadamente sobre a cadeira frágil, que range. Sugiro que se mude para uma das poltronas de madeira, onde se acomoda como pode, graças ao regime alimentar a que ficou submetido por tão longo tempo. Não fosse isso, mal poderia caber na sala o corpanzil de quem estava acostumado às prolongadas comilanças e bebedeiras, em comemoração de todo e qualquer pretexto para encher a pança e esvaziar barris e mais barris de excelente vinho. Assim, veio ao mundo, quando Gargamelle, depois de locupletar-se com tripas, o expeliu em tripas. Banquetes intermináveis não faltavam naqueles dias alegres do Renascimento).

- Gargântua, o que você está fazendo no painel de edição do aplicativo? Tentou inserir alguma coisa?
- Eu?! Não. Estava até cochilando.
- Que é isso? Que figura mais horrenda!
-Huumm... deixe eu ver direito... Ah! Veja só quem aparece: Quasímodo, o Corcunda de Notre-Dame! Então, meu velho, conseguiu escapar da forca?
- (Grunhido).
- Nada de lembranças tristes. Quasímodo tem coisas mais interessantes a nos dizer, não tem, Quasímodo? Por exemplo: acostumado a saltar sobre os telhados de Notre Dame e adjacências, muito deve ter visto e escutado. Não me entenda mal, Quasímodo. Eu me refiro à bela Paris do século XV, aos sons dos campanários, ao ruído das carroças pelas ruas estreitas e da gente a caminhar por elas.
- A quem você pretende enganar? Que ruídos ouviria esse pobre surdo? Perdeu a audição desde que se tornou o sineiro de Notre Dame aos catorze anos. Acho que você quer saber de coisas bem menos aparentes.
-Não seja malicioso. Quasímodo consegue ouvir, sim, mesmo com dificuldade. Além disso, ainda que não seja o equivalente ao homem ideal do Renascimento, ele é uma pessoa sensível, de bom coração. Um romântico. Não é dado a bisbilhotices nem à maledicência. Confirmo o que digo a cada vez que releio o livro.
- De tão bom coração, que não mediu esforços para empurrar quem o acolheu, criou e instruiu: o infeliz padre Frollo, que virou enroladinho, depois de muito se agarrar às gárgulas e cornijas, terminando no chão, como aconteceu ao irmão dele, Jehan, a quem seu doce Quasímodo não hesitou em desconjuntar num só safanão. All dead.
- Você julga com parcialidade. Leia o livro de outro modo. O padre foi cruel com a pobre Esmeralda. Bela e encantadora menina, que teve um fim tão trágico! Uma paixão demoníaca, uma gargalhada macabra e o mergulho infernal no vazio. Quasímodo foi somente o propulsor da queda. Estava escrito. Claude Frollo bem o sabia, acostumado que era a decifrar códigos herméticos.
- Acho que você está apaixonada por Quasímodo...
- Pode ser. Já tive uma paixonite pelo padre Frollo. Agora, busco outras qualidades. Essas figuras enigmáticas só me trouxeram desilusão.
- Elas estão atrasadas...

- Elas, quem?
- (Pigarro) Maga Patalógica e Madame Min.
- Como??? Você convidou as duas sem me consultar, Gargântua?
- Bem... Você sabe...
- Desembuche.

(De desembuchar-se, muito entende Gargântua, pois nasceu em condições bem escatológicas, como foi mencionado acima. Envolto em
tripas, depois de uma jornada ascendente pelo corpo de Gargamelle, saiu pelo ouvido. Vindo assim à luz, ao invés de chorar, berrou: “Beber! Beber! Beber! Isto assegura Rabelais, fundamentado na escolástica dos sorbonnistas, aos que duvidam de tal forma de nascimento : “a fé é argumento das coisas de nenhuma aparência”. Portanto, só nos resta acreditar).

- Chegaram!
- Por onde?
- Pela lupa do painel.
- Não entendi.
- É um modo de chegar. Você usa tanto a lupa e não compreende?
- Não me lembro de ter buscado nenhuma informação sobre elas.
- Eu busquei. Queria conhecer gente nova. Ando meio entediado com a velharia metamorfoseada de Ovídio. Chega de Alcinas, Melissas et caterva de Ariosto!
- Nem seriam tão novas, se não forem as da literatura clássica o parâmetro.

(Maga, com o olhar alongado pelo rímel, me cumprimenta com frieza. Min, ao contrário, escancara a boca de raros dentes num sorriso simpático. Sempre nos demos bem. Nos tempos de adolescência, um dos meus apelidos era “Madame Min”, tamanha a afinidade que nos unia nas longas horas em que eu trocava o livro didático pela revista em quadrinhos).

- Que temos para comer e beber, Martha?
- Penso que nada, Gargântua. Não esperava por vocês.
- Que horror! Dê um jeito. Peça por delivery.
- Tenho uma ideia melhor: comida e bebida de mentirinha. Não era assim que eu oferecia às amigas que visitavam a minha casa de bonecas? Nenhuma delas deixou de elogiar o que eu servia. Ora, meus amigos, pensando bem, vocês todos são de mentirinha. Produtos da imaginação. Assim também me vejo. Sempre me perguntei se, de fato, existo. Para não me alongar nessa filosofia capenga, sejamos práticos. Vou preparar a comida. Enquanto isso, bebam vinho à vontade. Só não bebam da garrafa do vinho do esquecimento, por enquanto. Vamos deixar esse, que Mefistófeles me trouxe, para o final.

- Maga e Min, podem me dizer como se faz croquetes de pó de pirâmide envoltos em teia de aranha, por favor? Estou, também, pensando que talvez um caldo de asas de morcego caia bem. Isso pouparia minhas aranhas, que vivem tão candidamente pelos cantos e janelas: Aranēa supra fenestram habitat – como ensina Paulo Rónai.

- Bebamos e cantemos, meninos!

“A, a, a!Bacchanalia!
A, a, a!Bacchanalia!"
(Coro)
“O beata tempora,
Bibemus in memora:
A, a, a! Bacchanalia!”

- Mais vinho, Quasímodo?
- Hummm…
- Que tintura você tem usado para conseguir esse tom de roxo tão bonito? Seu cabelo esta lindo, Min!
- Obrigada, querida! A fórmula é segredo do meu cabeleireiro.
- Gargântua, como tem passado Pantagruel? Depois de ultrapassar as páginas da longa genealogia dele, de que você faz parte, é claro, vou lhe pedir que o traga aqui.

- Mais vinho, pessoal? Alegria! Sejamos alegres, como recomenda Voltaire. “Tudo vai pelo melhor”.
- “No melhor dos mundos! Ih-ih...
- Muito bem, Quasímodo! (O que não faz o vinho!).

- Mais rápido, allegro vivace, cantores!

(Todos, com o compasso marcado por Quasímodo, que bate fortemente o chão com o pé)

“E, e, e! Dies feriae!
0 beata tempora, etc...
I, i, i! Dies diei!...
O, o, o! Pleno poculo!...
U, u, u! Bibemus diu!”
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura