Vão-se as águas. Voam os pombos

         



Por Martha Guedes
Andava pelas ruas estreitas do Comércio, na Cidade Baixa, como é conhecida a área em Salvador. Vestidinho engomado, sapatinhos brancos com meias de buclê, eu dava a mão a Papai enquanto saltitava para livrar-me das poças d’água oriundas de tubulação rompida de esgotos que me pareciam datar da época em que Tomé de Souza iniciou a construção da cidade. Não raro atendia à advertência: “Cuidado com os pombos!”

Pombos? Onde? Pombos não eram propriamente as aves que eu via aglomeradas na Praça Municipal, em frente do Elevador Lacerda ou em algum sítio nas imediações da minha pequena Ruy Barbosa, mas algo neles inspirado, embora feitos de folhas de jornal e recheados de tudo o que repugnava a uma menina mimada e dada a chiliques de nojo à simples menção de qualquer matéria escatológica. Esses pombos de papel, em voo descendente partido dos andares superiores dos velhos sobrados, acabavam por espatifar-se nas calçadas estreitas ou ao longo dos meios-fios. Mais seguro, portanto, seria caminhar pelo meio da rua, torcendo para que nenhuma dessas aves se aventurasse a voos mais oblíquos.

Menina do interior, fascinava-me a capital multicolorida, sonora, diversa... e malcheirosa. Quando retornava à cidade natal, relembrando a experiência civilizadora dos poucos dias passados em Salvador, misturava-se à memória sensorial de cor, som e movimento o odor que exalavam as ruas. Só mesmo um perfumista, como aquele do filme “O Perfume”, seria capaz de obter a essência resultante da mistura de maçã, jornal, acarajé e esgoto, interpretando, assim, o que me informava o olfato ao inspirar os ares soteropolitanos.

Mudou muito quanto a tais emanações a cidade dos dias atuais? Não. Talvez pombos voem menos, mas o hábito de descartar do alto o excedente alimentar, capilar, contraceptivo, absorvente, etc., atesta o apego à tradição, que tanto nos caracteriza. Guardamos, ainda que não conscientes disto, a observância às normas higiênicas medievais que nos legou o Reino nos tempos da colônia: lixo é para ser lançado fora. Na rua.
Um pouco de história para embasar essa história meio embaraçosa. Então, lá vai! Vai o quê? Água vai.

De Lisboa, pelo mar além
Esgotos em Lisboa havia, é bem verdade, mas poucos, somente as ruas principais tinham o privilégio de servir-se deles. Isto porque a peste mostrou a que veio. E Dom João II, que reinava em 1486, acatou provavelmente o conselho dos “físicos”, os médicos da época, e determinou que se fizessem canos bem grandes para drenar tudo o que havia de pestilencial. E havia muito.

No mais, era manter a tradição de despejar as imundícies na vala aberta no meio da rua e gritar: “Água vai!”. Gritar antes, mas o que não faltava era quem gritasse depois, motivo pelo qual muito apaixonado, ao cantar ao pé da janela o amor pela senhorinha eleita, recebia pleno jorro do penico lançado pelo pai da moça, que só então cumpria a norma e exclamava a frase de advertência. E foi assim até o início do século XIX, quando a norma se tornou mais rígida: despejo a qualquer hora? Nem pensar. No verão, só depois das onze da noite. No inverno, depois das nove. E não era jogar, e pronto. Tinha de dizer três vezes “Água vai!”. Sob pena de multa de dois mil réis para quem se fizesse de esquecido.
O uso e a norma foram transferidos para o Brasil. Caducou a norma. Subsistiu o uso. Todavia, à medida que o espírito de progresso, aliado à ciência, tentava demonstrar a excelência da higiene no esforço de nos tornar civilizados, retraía-se o penico, dando lugar ao pombo, que podia alçar voo de modo mais discreto de uma janela qualquer, silenciosamente.

Não me surpreendeu, em dias bem mais recentes, ter ouvido de um amigo, intelectual renomado, que o síndico o repreendeu por jogar da janela do apartamento, no oitavo andar, papel amassado e cascas de frutas, que caíam no play ground onde brincavam os meninos que o denunciaram. Herança cultural. Atavismo, que nos meninos ainda não se havia manifestado. Só um síndico ranzinza não compreende o fenômeno.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura