Cochichos sobre a carta do bolso-temer





Por Eliecim Fieelis
Já iniciava o frio entardecer de um dia quente do planalto central. A mansão quedava-se em silêncio após a prolongada barulheira aguerrida. Depois de algum tempo de meditação, ele esticou o queixo fino, afastou os cotovelos esbranquiçados do braço da poltrona imperial e puxou o bloco timbrado e a caneta dourada. Cenhos franzidos e interrogativos, a primeira frase a redigir já começava escorregar do pensamento, quando o outro interrompeu:

- Por que as duas palavras separadas?
- Separadas, mas unidas; não está vendo o tracinho?
- Um traço de união. Mas... é porque será redigida a duas mãos?
- Vamos ver. Palavras são palavras...
- Pode parar! Já sei o que vai dizer na sequência: ...nada mais que palavras.
- Observe o que ocorre nos tempos atuais: não se consegue distinguir as palavras verdade e mentira.
- Hum! não sei se concordo.
- Segundo Nietzsche, a palavra é uma espécie de obra de arte pela qual os artistas tentam representar a natureza inapreensível. É tão comum a mentira virar verdade, e também esta imiscuir-se na mentira e ambas confundirem as idiossincrasias através dos olhos dos algoritmos. Não é esse o grande dilema das redes? Lembre-se também que as palavras já são encontradas quando chegamos ao mundo e a elas, sem opção, aderimos como verdades prontas.
- Mas onde vamos chegar com essa filosofia?
- Talvez a outra concepção nietzschiana que diz que as palavras, não conseguindo representar o inapreensível, acabam se tornando apenas convenções ilusórias socialmente necessárias. Logo, as palavras verdade, mentira e tantas outras não passam de ilusões necessárias.
- Necessárias para que e para quem?
- Boa pergunta. Acompanhando ainda Nietzsche pode-se dizer que a verdade e a mentira acabam sendo uma imposição daqueles que disputam o poder em pleno jogo de esconde-esconde da guerra do homem lobo do homem.
- E só o Nietzsche entende de palavras?
- Não. A palavra é o embuste da retórica; a matéria prima da literatura e da psicanálise; o ganha-pão dos jornalistas. Diz ainda Shakespeare, em Macbeth, que “palavras só fazem soprar um hálito gelado sobre o calor das ações”.
- E como aplicar essa filosofia nas palavras que estão unidas no título do texto?
- Bolso é uma palavra, certo? Temer também o é. Mas no caso desta última, a depender da acentuação lexical, ela se faz oxítona ou paroxítona, permitindo duas versões, e nesse caso tudo pode tornar-se temer-oso, pois vai depender do que é possível entrar ou sair do bolso, ou nele prender ou soltar.
- Soltar ou prender no bolso? Isso parece mais conversa de porta de cadeia.
- E há o que “temêr”, então?
- Sei lá. Mas se não ‘temer’ pelo ‘bolso’ pode ser pela valise de couro, pela loja de chocolate...
- Pó pará! Pó pará!
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Psicanalista e escritor