Os Visitantes





Por Martha Guedes
Quem os convidava, eu jamais pude saber. O que sabia era que, a intervalos de mais ou menos cinco anos, algum deles aparecia, rondava sorrateiramente várias casas, passeava as praças e desaparecia, ao nascer do sol. Eu me lembro bem da visita da Mula-Sem-Cabeça. Os meninos da rua afirmavam ter ouvido o galope. Para atestar a veracidade do relato, era só perguntar ao pai de um deles, que teve coragem suficiente para abrir a portinhola e ver com os olhos que a terra haveria de comer. Fiquei em dúvida e consultei as fontes domésticas: Papai, positivista que era, zombava de toda e qualquer superstição e crendice. Mamãe, educada em moldes puritanos e assépticos no colégio americano, saneava as nossas mentes desde a mais tenra infância, não permitindo que almas do outro mundo e aleivosias mais conspurcassem o reduto do lar.

Toda a minha fundamentada incredulidade foi transmitida à turma, até que o velho motor de luz a diesel, roncando assustadoramente, anunciasse chegada da noite e abalasse os alicerces da fortaleza cepticista. Um arrepio de pavor me percorria a coluna. Adivinhava a aproximação da criatura infernal. Ouvia-lhe o trotear.

A Mula assustou a mim e a quem ela bem quis assustar e foi-se embora. Outras assombrações vieram. Lembro-me vagamente de uma que se chamava Boca de Ouro. De muitas, eu me esqueci. Daquela plêiade, não poderia faltar o Lobisomem. Ele veio. E Dona Etelvina, a nossa cozinheira, garantiu-nos (a meu irmão, também) que o dito cujo era o compadre dela. Que tinha até rasgado o vestido da comadre num acesso de fúria. Pela manhã, com a cara mais limpa desse mundo, abriu um largo sorriso e deu bom-dia. A comadre, apavorada, reconheceu nos dentes do danado os fios do tecido da roupa que ela vestia.

Lá pelos idos da década de setenta, quando voltava de férias da faculdade, soube de mais uma personagem – a Mulher de Sete Metros, também conhecida como a Loura de Sete Metros. Com ela não travei conhecimento, embora me dissessem que costumava dar uma volta ao jardim da nossa praça. Posso confessar uma coisa? Pois bem: no fundo, no fundo do coração, senti um ligeiro tremor, que nenhum conhecimento antropológico pode evitar. Assombração é mais convincente que teorias acadêmicas.

Às vezes, indago a ritmada aparição desses seres extraordinários ao travesseiro em noites de insônia. Havia regularidade na visitação. Seria um acordo entre eles ou alguma espécie de conjunção de forças de outra natureza, obscura natureza, correspondência negativa das forças que nos movem? Talvez criássemos condições favoráveis sem que nos déssemos conta. Complicado? Vou dar um exemplo: o quartinho dos fundos, no quintal das nossas casas. Remanescente das senzalas, o quartinho dos fundos se manteve por muito tempo, sobretudo nas casas do interior. Servia de alojamento dos serviçais domésticos, depósito de ferramentas e demais objetos de uso não tão constante, de velharias e inutilidades que o apego ou a preguiça transformava em uma espécie de museu empoeirado, onde não faltavam ratos, baratas, aranhas e almas penadas. Ali elas se escondiam, silenciosas, à espera do desavisado que, por algum motivo, entrasse em horas sombrias. Além desse tipo de quartinho, havia o que servia de sanitário. Era a “casinha”. Atrás da privada, punha-se à espreita a aleivosia, pronta a atacar o padecente de algum incômodo intestinal noturno. Muitas foram vistas e descritas. Todas tinham nas costas um buraco de onde saíam flamas aterrorizantes. Só em mencionar, fico arrepiada. Apareceu para uma senhora que trabalhou lá em casa. Ainda bem que foi na casa dela.

Almas penadas, que gemiam rouquenhas um pedido de perdão, não eram da mesma natureza dos visitantes aos quais me referi. Elas permaneciam na casa, não se davam a excursões pela cidade. Tinham, certamente, a consciência de pertencimento ao lugar. Isto poderia até motivar um estudo sociológico.

Ainda inquirindo ao travesseiro a razão de terem escasseado ou findado - quem sabe?- tais visitas, bem como a ausência da alma penada no ambiente doméstico nesses dias atuais, levanto a hipótese de que o acelerado desenvolvimento da informática e a disseminação por todo o lugar e indivíduo dos meios de acesso à informação, sobretudo os telefones celulares, têm clarificado, por assim dizer, os espíritos. Os nossos. Os do além, entretanto, nada afeitos a clarificações, decidiram por retornar às sombras de onde provieram. É o que intento esclarecer. Ato falho. Queiram me desculpar, almas penitentes e entidades deambulantes, há luz demais neste projeto. Luz que ilumina, inclusive, as festas “paredão” da praça da minha cidadezinha, uma espécie de luz que achata e torna uniformes a nós os que vivemos, sem o contraponto da sombra. Luz que a tudo anula. E aplaina a imaginação. Decididamente, não há mais lugar para vocês.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura.