O aguilhão que nos aflige





Por Martha Guedes

Há pouco, sem querer, matei um inseto ao borrifar no banheiro um produto de limpeza. O pequeno ser alado perdeu, assim, o único bem que possuía, ainda que efêmero e inexpressivo. Muitas vezes desvirei besouros e salvei formigas, aranhas, traças e mais alguns integrantes do universo entomológico que se interpõem em nosso habitat, nem sempre com propósitos que nos são convenientes. E foi com um misto de compaixão e revolta pela minha incúria que contemplei aquele cadáver ínfimo em visibilidade e consideração.

Pensei mais uma vez sobre a morte. Onde estamos, ela está. Ela é constituinte da nossa vida. A todo instante matamos. E morremos. A morte se insinua na alegria e no prazer vividos a cada dia. Comemos o que matamos e o que comemos quase sempre nos mata. A morte é ubíqua, pois cabe em todo lugar, na vigília e no sono, e a tudo se conforma.

Não pretendo filosofar sobre o tema. Nem poderia. A história da filosofia tem os nutrientes que suprem a necessidade de conhecimento sobre ele e não caberia a mim, pobre mortal, arvorar-me em filósofa e infiltrar-me entre os imortais. Mas, não me eximo de divagar sobre a morte, que me tortura, aceitando-a todavia como paradoxalmente necessária à vida.

Pois é preciso morrer para que se viva, como disse o apóstolo Paulo aos coríntios, confusos entre a doutrina cristã e o pensamento grego pouco elogioso quanto à matéria – o que é semeado não nasce sem que antes morra. Referia-se à ressureição dos corpos: “Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção”... “Semeia-se em desonra, ressuscita em glória”. Creio nisto, agora mais do que antes. Para mim, verdadeiro alento, pois constante é o “memento mori” desses dias tão céleres em findar-se.

Morro dia após dia, tornando minha esta afirmação do apóstolo. Assusto-me diante do espelho e tento apanhar, com mãos ressequidas, os muitos fios de cabelos brancos que se espalham pelo chão. Quase todos me escapam, já que os olhos baços não os distinguem na superfície clara. Penosamente me ergo e volto ao espelho. Nada mais há que fazer além de admitir que tudo é volátil como o cabelo que cai. Dissipam-se as ilusões, como que sopradas pelo vento.

“Vaidade de vaidade, diz o Pregador no Eclesiastes, tudo é vaidade”. Se nem ao menos posso reter na memória o que se passou, por que tentar reviver o passado, considerando-o como melhor que o presente? Preferível é estabelecer com a morte um pacto de convivência (se posso aqui usar o termo “convivência”), aceitar o presente, admitindo que o fim da vida terrena não é o fim da esperança. Discutiremos a premissa. Nesse embate teológico, a morte perderá, como sabe de antemão. Está escrito.

A alma se reveste de trevas e o calor do sol não é suficiente para aquecê-la. Fria e artificial, a comunicação formatada para ser breve acentua a distância e leva à solidão. Mingua a solidariedade. O lugar vago deixado pelos amigos e familiares é ocupado pelo espectro da morte. Que dispensa a internet. Que não tem pressa. Torna-se confidente e ouve sem impaciência o que lhe é dito. Companhia certa, não se evade.

É preciso ter cuidado, bem sei. A morte é traiçoeira, como convém à natureza infernal de que é constituída. Devo tratá-la com sabedoria. E acabará por fazer o que não lhe agrada de modo nenhum fazer – conduzir-me ao portal da vida. Prossigo, então. O que ficou para trás, a juventude e a primavera da vida, são vaidade, como assegura Salomão.

Irei, ao final, perguntar: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” Ela certamente nada dirá, embora saiba do que se trata. Pois está escrito.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura.