FUGA E GOLPE





Por Carlos Ribas
Quando em casa começaram a desconfiar daquele meu amor pela sétima arte, aumentou o controle sobre as minhas saídas vespertinas que, quase sempre, entravam pela noitinha, a depender da extensão do “programa” cinematográfico.

A censura ao meu comportamento, por isso ou por aquilo ou por aquela outra “coisa diferente” que fizesse - meus pais não falavam comigo sobre sexo, por exemplo - também aumentou sua voltagem. Essa falta de diálogo sobre essa parte importante da minha vida só fazia aumentar a minha angustia, como acontece com todos os filhos e filhas, até no dia hoje, como é sabido que acontece, até hoje em dia.

Numa hora dessas, depois do almoço, resolvi fugir de casa. Peguei Doralinda, minha tartaruga cega, um pedaço de carne com banana, que era o que ela mais gostava de comer na sua cegueira, uma garrafa de água mineral Itaparica, coloquei tudo dentro de um saco de papel do Supermercado Paes Mendonça, desci as escadas, os dois andares do prédio onde morava e me sentei com Doralinda na grama, em frente ao Quartel dos Aflitos, pretendendo ficar escondido, “fugido”, mas bem à vista de quem chegasse primeiro à varanda do meu apartamento, no passeio defronte.

Ninguém apareceu, nem deram por minha falta. À tardinha, quando os soldados vieram arriar as bandeiras dos mastros e me encontraram, um me disse que eu não podia ficar sentado ali na grama “deles” com uma tartaruga cega dizendo que tinha fugido de casa porque meus pais não conversavam comigo sobre sexo. O lugar era uma área militar e, para piorar ainda mais a minha já precária situação, toda aquela Sexta Região passaria a ser rigorosamente controlada, a partir daqueles próximos dias, “por questão de segurança nacional”, me informava aquele soldado todo verde, que nem a minha tartaruga cega. Estava completamente fudido.

Censura em casa, repressão na rua. Voltei para o apartamento muito mal por não ter conseguido despertar nenhuma preocupação com a minha fuga e caí de cama com febre e dor de garganta, pensando no que me dissera o soldado. Poucos dias depois, sentindo-me melhor, pedi a meu pai que me levasse à praia, queria matar a saudade do mar. Ele me colocou no seu carro, um Aero Willys verde musgo, e fomos todos, tipo família feliz, eu levava no bolso do calção a minha Doralinda Pitoca Massaranduba Ribas.

Convidamos também o amigo “seu” Pitágoras, para passar um dia em Itapuã. Ao sair dos Aflitos, notamos um movimento incomum de homens e armas, caminhões e tanques, entrando e saindo do quartel, mas não tivemos maiores dificuldades em tomar o rumo da orla, naquela manhã ensolarada de março. Quando voltamos à noitinha, entretanto, o repórter confirmou, pela televisão, que o soldado verde não estava mentindo.|
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Cronista, jornalista e teatrólogo