Eexposição de pinturas de Rodrigo Andrade





Variações sobre paisagem, exposição de pinturas de Rodrigo Andrade, na Paulo Darzé Galeria, composta por 33 trabalhos em óleo sobre tela sobre mdf ou em óleo sobre cartão, em dimensões variadas, pode ser vista a partir do dia 7 de outubro até o dia 6 de novembro. Para o crítico José Bento Ferreira, no texto que integra o catálogo, “as paisagens de Rodrigo Andrade exercem um contraponto a essa desterritorialização automatizada. Não apenas convidam, como toda obra de arte, a uma contemplação duradoura e a uma imersão reflexiva, cada vez mais rara na época da avaliação visual instantânea, mas também proporcionam uma experiência de fruição que se configura como acontecimento, uma vez que muda o modo como vemos a própria pintura. Rodrigo Andrade faz da pintura de observação à reafirmação de uma modalidade de presença que a cultura digital agride”.

Rodrigo Andrade nasceu em 1962, São Paulo, SP. Vive e trabalha em sua cidade natal. A materialidade da tinta e referências sobre a história da pintura permeia o trabalho de Rodrigo Andrade. Sua gestualidade vibrante manifesta-se, sobretudo na pintura, mas também transita por suportes como desenho, gravura e objetos. Nos anos 1980, o artista integrou o grupo Casa 7 e, sob a influência do neoexpressionismo alemão, sua obra é apresentada em grandes formatos, com pinceladas expressivas e cores fortes. Na década seguinte, alternou trabalhos figurativos e abstratos e, a partir de 1999, passou a criar obras em que espessas massas de tinta a óleo, em formas geométricas, são aplicadas sobre a tela. Ele instalou suas pinturas matéricas de cor e forma em espaços públicos de São Paulo, e em seu contato com esses entornos é que reside sua potência: há uma permeabilidade entre a concentração e a contenção dos elementos presentes nos trabalhos do artista e nos ambientes nos quais foram instalados.

Realizou mostras em importantes instituições nacionais e internacionais. Entre as individuais recentes, destacam-se: Pinturas da era do absurdo, Galeria Millan, São Paulo (2020); Diálogo cromático, Galeria Simões de Assis, Curitiba, PR (2019); Pintura e Matéria (1983-2014), Estação Pinacoteca, São Paulo, SP (2017).

Entre suas participações em exposições coletivas: 1981/2021: Arte Contemporânea Brasileira na Coleção Andrea e José Olympio Pereira, Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, RJ; Já estava assim quando eu cheguei, Galerie Ron Mandos, Amsterdam, Holanda (2020); Oito décadas de abstração informal, Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP e Cependant, la peinture: Rodrigo Andrade, Fabio Miguez, Paulo Monteiro, Sérgio Sister, Galerie Emmanuel Hervé, Paris, França (2018); Troposphere, Beijing Minsheng Art Museum, Pequim, China (2017); Deserto-Modelo “As Above, So Below”, Harold St., Londres, Reino Unido (2015); Iberê Camargo: Século XXI, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS (2014); Lugar Nenhum, Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, RJ (2013); 30 x Bienal, Pavilhão da Bienal, São Paulo, SP (2013); e 29ª Bienal de São Paulo, SP (2010).

Em 2008, foi publicado o livro monográfico Rodrigo Andrade, que reúne seus trabalhos desde 1983 (Editora Cosac Naify). Sua obra integra importantes coleções públicas, como do Museu de Arte de Brasília, DF; Instituto Cultural Itaú, São Paulo, SP; Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, MG; Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP; Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP; Museu de Arte Contemporânea de Niterói, RJ; além de coleções particulares.

ENTREVISTA A CLAUDIUS PORTUGAL

Você iniciou nos anos 1980 integrando o grupo Casa 7. Desde o início é indicado afinidades com a produção do neoexpressionismo alemão, com obras em grandes formatos, de pinceladas amplas e matéricas, expressivas, e cores fortes. A partir de 1985, sua pintura revela uma gestualidade que desfaz as composições mais evidentes, realizadas anteriormente. Segue alternando trabalhos figurativos e abstratos e, a partir de 1999, surgem novas mudanças.
O diálogo do artista com questões contemporâneas e tradicionais, seus temas, e de como essas pinturas recentes se relacionam com sua trajetória, passando a criar obras onde espessas massas de tinta a óleo, em formas geométricas, são aplicadas sobre a tela. Telas nas quais apresenta formas monocromáticas retangulares ou circulares dispostas sobre superfícies neutras. E que fazem alusões a signos e sinais gráficos, presentes no ambiente urbano, conforme é reiterado pela crítica.
No ano 2000, convidado a participar do “Projeto Parede”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), sua obra passou a ter a dimensão ambiental, onde seu trabalho intervia no corredor entre o saguão de entrada do museu e a sala principal de exposição, com blocos de cor que vinha realizando desde 1999. Após a parede do MAM, você realiza em um bar, a pintura “Lanches Alvorada” (2001). Sobre as paredes de azulejo do bar, blocos de tinta a óleo em cores que se confundiam, apesar da discordância entre si, com elementos visuais bastante poderosos e característicos de um estabelecimento desse tipo: Tabelas de preço pretas com letras amarelas, caixas de cerveja em plástico vermelho, a televisão pendurada próxima ao teto, cadeiras de metal pintadas de vermelho, o azulejo antigo com desenhos em rosa, laranja e amarelo. Em 2003, o espaço da pintura é abarcado pelo espaço exterior a partir da projeção da rua no interior da galeria na exposição “Passagem”. Creio que este resumo de passagem sirva para compreensão das perguntas que seguem. 

1 - O que significam estas experiências para todo o processo de sua arte?

Antes de mais nada, ótimo resumo! Meu trabalho sempre se movimentou entre a figuração e a abstração. Minha origem é a figuração, mas desde muito cedo eu quis experimentar, e conquistar, a autonomia das formas abstratas.
Talvez o denominador comum na minha obra seja a presença da matéria pictórica como elemento significante, expressivo.

2 - A experiência da ‘parede’ trazia novas questões para sua arte?

A parede abriu uma ampla possibilidade de expansão do meu campo pictórico. Da tela para o espaço do mundo comum, do mundo real. O trabalho emblemático dessa conquista foi “Lanches Alvorada”, pois não só era uma pintura na parede, fora da tela, como também fora do mundo da arte, afinal era num boteco do centro de SP. Com isso, os elementos encontrados no local da obra passam a fazer, parcialmente, parte da obra, ao mesmo tempo em que o ambiente ameaça engolir a pintura, criando uma tensão que me interessa, que a meu ver faz a força do trabalho.

3 – Pintura sobre a parede. O que significou naquele momento para sua arte, o espaço? Ou nela a presença íntima e direta, não mais um observador distante, do espectador com a obra?

O espectador de uma obra como “Lanches Alvorada” é não só colocado diante da pintura, ele é colocado no meio da pintura. Assim, a experiência estética torna-se mais imersiva. Apesar disso, a estranheza da pintura nesses locais sempre coloca o espectador numa posição questionadora: "o quê essas massas de tinta colorida estão fazendo aqui?"… Essa estranheza é fundamental no meu trabalho, mesmo nas pinturas sobre tela.

4 - O que nas telas era uma relação entre cores, no espaço público, para situar como instalações vem a se tornar uma conversa mais ampla. Tinha algum receio de esta obra ser nomeada pinturas decorativas, como chegou a ser dito por um crítico?

Olha, não tive esse receio não, pois sempre busquei uma relação de estranheza e adaptação das massas de cor e o espaço ao redor onde se instala. Por um lado, se harmonizar como ambiente e por outro se destacar do ambiente, numa "negociação" formal, que varia de caso para caso, mas onde a escolha das cores é um aspecto fundamental.

5 - O que a realidade de um bar interferiu para sua concepção de sua arte daí por diante?

Dali em diante a arte passou a ser um território de "contaminações". A pureza da pintura deixou de ser um valor. Se bem que a minha pintura sempre foi "invadida" pelo mundo, senão pelo espaço propriamente dito, mas por referências e influências de coisas que existem fora da arte.

6 - O que isto acarretou deste momento para a sua sequência ou processo criativo no momento em que volta a tela?

Primeiramente, a noção de que a tela também podia ser encarada como um espaço do mundo onde eu faria uma interferência, uma instalação. Isso exacerbou minha ideia de estranheza entre o suporte da tela e a tinta, que são tradicionalmente feitos um para o outro. Esse paradoxo tornou-se fundamental em minha pintura. É o que garante a tensão que as anima.

7 - Em "Paredes da Caixa" (2006), blocos de cor, de tamanhos, formas e espessuras diferentes são instalados em algumas salas do Museu da Caixa Econômica Federal. Espalhados pelas paredes, retratos em estilo acadêmico de personalidades marcantes da história do banco. Os retratos convivem com grandes estantes de livros, mapas, cartazes, peças de mobiliário de época, máquinas de escrever, calculadoras e uma estranha sala de atendimento médico. Diz um crítico que ao distender as fronteiras de sua pintura, Rodrigo Andrade assume um risco. Tudo poderia resultar em puro efeito decorativo, se não se acreditasse na possibilidade de diferenciação.
Chegamos ao século XXI.
Havia neste momento como característica principal, na mostra “Passagem”, uma relação direta, apenas um vidro separava seu interior da calçada, da galeria internamente com o espaço urbano. Esta integração vira novos caminhos para sua arte?

O "risco" foi sempre um atrativo para mim. Afinal, estou lidando com os limites da arte, os limites da pintura. O "puro efeito decorativo" é um desses limites. Do outro lado, há o risco de ser NADA. Entre o decorativo e o nada busco nesses trabalhos criar um lugar instigante, potente e libertador.

8 - Sua pintura volta neste ponto a se relacionar mais uma vez com o universo dos objetos cotidianos. É a fronteira se ampliando? Um novo risco?

SIM.

9 - A sua pintura figurativa trabalha com a tinta densa, contornada e concentrada. Um tratamento que você já usava, desde 1999, nas pinturas abstratas. Nesse período de agora, pinturas foram feitas a partir de imagens fotografadas por você. Imagens fotográficas, dotadas de perspectiva, referências históricas da pintura e do país. Esta mostra na 29ª Bienal de São Paulo, em 2010, como veio a repercutir em seu processo de trabalho?

Essa série de pinturas, “Matéria Noturna”, marcou uma nova ruptura radical em minha trajetória. Era ao mesmo tempo um retorno à figuração e um salto para uma pintura de extremo realismo, de extremo ilusionismo. O uso de imagens fotográficas como base de pinturas foi algo totalmente inédito para mim. O ilusionismo é fundamental nelas, pois se trata de um espaço psicológico, imaginativo. Afinal o ilusionismo é um fenômeno psicológico. E a tensão do trabalho, de novo, está na coexistência entre esse espaço imaginativo da ilusão como o espaço concreto da superfície e da massa de tinta aplicada sobre ela, que quebra o ilusionismo sem eliminá-lo, de tal forma que ele (o ilusionismo) se refaz para o espectador, basta afastar-se um pouco. Essa dupla espacialidade é o diferencial expressivo e conceitual dessas pinturas.

10 - Você já fotografava pensando em fazer das fotos uma pintura nesta mostra?

No início não, mas logo em seguida sim. Eu imaginava as pinturas e depois corria atrás das imagens que serviriam de base.

11 - A sua obra é permeada, assim se referem alguns críticos pela materialidade da tinta e referências sobre a história da pintura. A matéria sempre foi importante em sua pintura?

Sim, é o desejo de tornar concreto e significativo aquilo de que a pintura é feita: Tinta a óleo sobre tela (ou parede), o gesto que a aplica… É o desejo de tornar o próprio ato de pintar algo significativo e expressivo.
Sim, a história da pintura é importante no meu trabalho. É também um elemento expressivo. Por isso meu apego a certas formas clássicas, neutras por assim dizer, que não pertencem a mim, mas à história, à cultura. Minha afirmação de que atuo sobre uma matéria que está além de mim, e assim ser potencialmente engrandecedor.

12 - Se junta a isto uma gestualidade seja na pintura, mas também no desenho, gravura e objeto. Outro crítico já coloca que a sua própria pintura abstrata, da qual é contumaz praticante, é devedora da revolução impressionista, uma vez que as relações entre formas e campos de cor também resultam da dimensão pré-reflexiva desbravada pela pintura ao ar livre. Como se relaciona com a opinião e a crítica?

Questão profunda… A dimensão "pré-reflexiva" sempre foi almejada por mim. A de conseguir estabelecer ligações diretas entre meus impulsos e meus atos. Pintar, como fazia Manet, "por reflexo". Seja como for, eu também procuro alternar e equilibrar reflexão e reflexo. Como escreveu Johns num caderno de notas: "Às vezes olhar, depois fazer; às vezes fazer, depois olhar". De forma geral meu trabalho se nutre das opiniões e das críticas. Esse feedback é fundamental para que eu saiba se aquilo tudo que uma pintura significa para mim se transmite minimamente para o espectador.

13 - Sua mostra na Bahia, na Paulo Darzé Galeria, “Variações sobre paisagem”, acredito olhando seu CV, que é sua primeira exposição na Bahia. Sobre ela gostaria de saber como se enquadra hoje esta mostra diante de sua opinião, utilizando para tal a resposta dada por você numa entrevista. “Busquei nessas pinturas uma impessoalidade. No modo de fazer também, por mais gestualidade que houvesse. A ideia era preservar uma relação de neutralidade com a imagem. Não apenas convidam, como toda obra de arte, a uma contemplação duradoura e a uma imersão reflexiva, cada vez mais rara na época da avaliação visual instantânea, mas também proporcionam uma experiência de fruição que se configura como acontecimento, uma vez que muda o modo como vemos a própria pintura”.

Sim, a primeira exposição individual na Bahia. Participei anteriormente de um salão no MAM/BA (na gestão de Heitor Reis) em que ganhei um prêmio aquisição. Pois bem, a mostra na Galeria Paulo Darzé reúne pinturas realizadas entre 2020 e 2021 (mas que inclui pinturas de 2017). Marca uma inflexão, um movimento mais pessoal, menos "neutro". A gestualidade é mais presente, o realismo não é tão ilusionista. A presença das massas de tinta aplicadas com estêncil se funde mais na pintura total, sendo reduzida às vezes a detalhes. Posto isto, as questões colocadas nas pinturas da exposição são desdobramentos dos meus trabalhos anteriores, onde o espaço virtual da imagem se choca com a materialidade da tinta, da superfície e do gesto. E mesmo que certas escolhas de motivos sejam um tanto idiossincráticas (cenas urbanas periféricas e natureza selvagem rochosa) elas se inserem em tradições estabelecidas de longa data na história da arte, que é sempre pra mim uma referência. Basta pensar na tradição modernista brasileira do tema "favela" (mas no meu caso não há idealização romântica) ou do tema "rochedos" na tradição ocidental desde o Renascimento (Mantegna, Bellini, Salvador Rosa, Courbet, Cézanne). Assim sendo, mantenho certa "impessoalidade" que sempre busquei na minha pintura. E, conforme minhas respostas na entrevista, ao mesmo tempo reflexão imersiva e impacto de um "acontecimento".

14 – Qual o legado ou traço de união, ou características do percurso, que vê ou sente entre o início na Casa 7 e o que faz agora?

Bom, sou a mesma pessoa, né? Como disse o filósofo Merleau Ponty no texto A Dúvida de Cezanne: "Jamais somos livres de nós mesmos". Por mais que eu tenha tentado mudar e ir além de mim, sair de mim, meu percurso é até surpreendentemente coeso. Vi isso na minha retrospectiva na Pinacoteca de SP em 2017/18. Mas dois traços no meu trabalho têm raízes lá na Casa 7: A presença da matéria e a fusão de elementos da história da arte e do mundo comum.

PARA VISITAR A MOSTRA DE RODRIGO ANDRADE
Variações sobre paisagem, de Rodrigo Andrade, na Paulo Darzé Galeria, está aberta à visitação a partir do dia 7 de outubro, com temporada até o dia 6 de novembro, podendo ser vista, sem agendamento, no horário de funcionamento da galeria, de segunda à sexta, de 9h às 19h, e aos sábados de 9h às 13h.
Também pode ser acessada virtualmente pelo endereço @paulodarzegaleria nas redes sociais Facebook e Instagram, ou o site www.paulodarzegaleria.com.br, onde serão encontradas todas as imagens das obras e o catálogo da exposição.
Quanto ao dia do lançamento, 7 de outubro, a visitação está aberta ao público das 17 às 21 horas, e seguindo o protocolo será obrigatório o uso de máscara, e não terá serviço de bebidas alcoólicas