Os dilemas dos “Joãos” da Bahia diante Bolsonaro





Por Victor Pinto
O avançar das negociações de Bolsonaro com o PP travou articulações em duas importantes frentes no âmbito da política baiana. Deu um nó na cabeça de apoiadores, aliados e eventuais parceiros da corrida pelo Palácio de Ondina de 2022 envolvidos entre João Roma (Republicanos) e João Leão (PP).

 

No fundo acho que esse frisson em torno do PP - cuja tara é aumentar sua bancada no Congresso como única forma de exercer poder no futuro, seja com qualquer nome que esteja no Planalto - é uma cortina de fumaça para esconder outros debates. O PTB, de fato, seria o melhor do cenário de Bolsonaro para abrigar seus seguidores e garantir assim uma sobrevida de um grupo (se é que ele tem). No PP, além de não ter controle, teria muita dificuldade de se viabilizar nas hostes regionais do partido.

 

O PP é um partido com unidades federativas. Sempre deixou aberta a possibilidade de acordos localizados que garantam a governabilidade e engrosse sua bancada no Congresso (Câmara e Senado). É esse o jogo no qual é especialista, e não lançar um candidato a presidente. Do mesmo modo aconteceu com o MDB em 2018 que naufragou e agora tenta correr atrás do prejuízo em 22.

 

Mas partindo do pressuposto de uma filiação do presidente da República ao PP, Roma, no ministério da Cidadania, enxergaria “subir no telhado” a sua pretensa candidatura e o naufrágio de uma também pretensa disputa de sua esposa, Roberta, por uma cadeira na Câmara Federal. Por mais que tenha um perfil apaziguador e de diálogo, Roma não chegaria e sentaria na janela. O PP não é um partido pequeno, muito pelo contrário, é grande e de caciques bem definidos historicamente. O mesmo aconteceria com outros bolsonaristas que estão sem rumo desde o processo de fusão do PSL com o DEM.

 

Outra situação delicada passaria por João Leão e com interferências que esbarram também em articulações que envolvem o governador Rui Costa (PT). O vice-governador se veria obrigado a se lançar candidato a governador para salvar a sua proporcional. Por mais que o discurso do palanque regional solto vingasse, na prática seria o partido de Bolsonaro aliado com o PT. Não vai colar. Não haverá coligação. O teodolito perderia uma perna.

 

Do mesmo modo poderia acontecer uma debandada de deputados e lideranças da proporcional no mesmo momento do desembarque de Bolsonaro, pois estes não vão perder a sombra de Ondina e muito menos perder o discurso do time de Lula que é forte no Estado. Outro ponto: Rui renunciaria ao governo para concorrer ao Senado (hipoteticamente) para que um eventual partido de Bolsonaro fique no comando do governo da Bahia por quase um ano? Muito difícil.

 

A filiação ou não de Bolsonaro no PP tem queimado os neurônios de muitos. Aliados e não aliados. Ninguém sabe que rumo teria a nível nacional e muito menos nos contextos regionais. Isso só mostra a desorganização do chefe da Nação que não pensa em seus chegados. Não crava um caminho e acha que terá, como teve em 2018, um toque de Midas para impulsionar os nomes que orbitam seu teatro político.

 

Como disse, todos os caminhos levariam ao PTB, mas Bolsonaro é imprevisível. De fato, tudo pode acontecer até meados de abril de 2022. Ele no PP, Wagner perderia um aliado importante, Leão seria empurrado para disputa com chance de romper a parceria do grupo que ajudou a solidificar na Bahia, Roma não seria tão candidato assim e ACM Neto poderia até lucrar com essa desorganização.
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