Requiescat in pace





Por Jair Araújo
Mal conseguira tirar uma madorna. O sono, que geralmente tomava-lhe conta do corpo quando problemas perturbavam sua alma não chegara a acontecer. Não se lembrava de quando perdera uma noite de sono por preocupação ou remorsos de um dia infeliz. A noite estava ali estancada e visões regurgitavam como se num delírio estivesse o observador e o observado no mesmo plano, tudo numa mesma cena. O corpo irrequieto e tenso, mal suportava a angústia. A mulher dormia tranquila e a serenidade daquela expressão quase mórbida, tornava-o ainda mais desesperado. Os pensamentos orbitavam como poeira em redemoinhos. A noite fresca e silenciosa não transpunha a percepção, tampouco os sentidos daquele torturado. A mulher dormia, dormiam todos, só o seu desespero perambulava na solidão da casa vazia. Os corpos estavam todos distantes, como os espíritos e, por mais que tentasse, não conseguia dormir um cochilo sequer - malditos pensamentos!

Os olhos abertos na escuridão do quarto retratavam sua alma. Lembrou-se de Shakespeare, de algum dos seus pensamentos que agora não conseguia mentalizar. Nem uma prece, uma simples prece daquelas que aprendera na infância ao lado da mãe e que já repetira, mecanicamente, milhares de vezes ao longo da existência, conseguira articular agora. Sentiu enorme desejo de partir, desintegrar-se, assim como se fosse uma simples bolha de sabão. Fugir para bem longe de si mesmo, em estilhaços que fosse – que importa? Sentia-se insuportável dentro do próprio corpo – devia ser esta a sensação dos bebês indesejados no ventre materno, imaginou o homem. Mas não era do corpo que queria se afastar, pois sabia que, para onde seguisse, teria que carregar as suas experiências, os seus atos, as suas dores, as coisas da sua alma, enfim.

Qualquer reação seria inútil naquele momento. A fraqueza o dominava como a um inimigo em leito de morte. A pele nua e quente da mulher o fez estremecer como se um calor infernal queimasse sua alma. Afastou-se por debaixo dos lençóis antes que o pecado incendiasse de vez o que restava de bom em si. O tempo não seguia o seu curso, tudo era extremamente imóvel como a sua alma sofrida: o silêncio, a paralisia da noite, os corpos inermes e o desejo de fazer tudo correr para bem longe daquele momento, para frente ou para trás, com a fluidez atemporal dos contos de Clarice. Tudo em vão. Ninguém muda a realidade dos fatos ou transforma o que já fez acontecer. O golpe desferido não pode ser modificado pelo arrependimento. A vida não é uma ficção onde o autor brinca de criador e criatura. O tempo não volta.

Tateou as paredes na escuridão, ante a recusa de abrir os olhos. Preferia mantê-los fechados a encarar a possibilidade de estar enxergando o negrume do próprio olhar. Inseguro, tinha os móveis como amparo e como guia para os seus passos. O corpo franzino e curvado pesava sobre seus pés, dando a impressão de um caracol que se arrasta carregando todos os seus carmas. Os olhos opacos e os pensamentos vertiam conflitos e irresignabilidade. Da janela, a noite debruçava-se suave e estrelada, mas ele nada podia sentir além do seu desespero e da imensa culpa que o corroía como cadáver vivo. Não tentava construir um caminho para justificar nada. O que está feito, está feito. Pensou na sua vida que lhe veio em fragmentos, como as colchas de retalhos que cobriam as camas na casa da sua vó. Queria ser menino outra vez, recomeçar tudo, mas... o tempo, ah!.

Ah! Se pudesse acontecer? Certamente não cometeria os mesmos erros outra vez. Mas, como aprender se não errar? É difícil ser normal. O Himalaia, o Tibet! “É fácil ser monge quando se está alheio às coisas do mundo”, pensou.

Queria apiedar-se de si e não conseguia.

"Se é difícil para mim imagine para os outros? Mas como perdoar os outros se não exercer o perdão em mim?”.

Os pensamentos volitavam aos turbilhões. As respostas embaraçavam-se em teias, sem solucionar as inquirições que insistiam em atormentar aquele ser, agora frágil e desnorteado.

Sentia a sensação de que toda a sua existência de nada valeu. Fez tanto. Tentou ser exemplar durante toda a vida. Esforçara-se para superar as dificuldades impostas pela sociedade de consumo, sufocara tantos desejos mundanos, mas extremamente humanos e sedutores. Quantos desejos roubara-lhe o temor a Deus? Viu-se tantas vezes impelido a roer a corda como um rato e romper definitivamente todas as amarras que o sistema lhe impusera e que a ele se submetera com a passividade dos judeus em Auschwitz, porém quedou-se diante da possibilidade de também poder se ver como o responsável do seu holocausto interior. Sem dúvida que era, mas queria negar. Os tintureiros turvam de violeta as águas cristalinas do mar azul para fugir do predador. A escuridão é a defesa dos fracos e nela todos estão sós como aqueles que enfrentam a morte.

O tempo parou. Longe, muito longe, alguém rasgou uma ária do La Bohéme, num soprano irritante e desafinado. Foi o único sinal de movimento na noite. O som cortou os tímpanos e dilacerou o que restava da sua alma podre e doentia. Sentiu o frio do mármore sob os seus pés e pensou nos corpos nus e desamparados no necrotério. Imaginou seios petrificados e o púbis juvenil esplendorosamente preservado sob um véu de mistério e solidão. Sentiu-se tão só e tão perto da morte como aquela menina da sua imaginação. Uma lágrima escorreu-lhe à face e sentiu, mais uma vez, a força da alma a comprimir-lhe o peito ofegante.

– A morte é nada, é como a própria vida. Passou-lhe, então, um fio de esperança, – na vida ou na morte reina essa esperança? Não se sentia obrigado a viver tal conflito, mas não poderia dar fim nele, restava-lhe apenas remendar os cacos e seguir adiante. Não saberia dimensionar sua capacidade de resistência para a separação, muito menos para aceitar sua própria sentença de culpa, mas somente assim, enfrentando-as, poderia libertar-se.

O risco de destruição estava iminente. É como se um cataclismo estivesse para acontecer a qualquer instante. Destruir-se significava sacrificar inocentes, mas manter-se no conflito era condenar-se a perpétuo sofrimento e apenas adiar a tristeza das criaturas do seu afeto. A vida é como a morte, um caminhar sonambúlico quando dela não se tem consciência, apenas isso. Maldita consciência, cáustica e corrosiva, que nos faz verdugos e vítimas e, ainda que todos desejem seduzir e emprenhar-se na luxúria, experimentar o cinismo das traições, barganhar interesses, quebrar a cara na entrega das paixões, tem que se penitenciar pelo pecado de não ser perfeito.

À noite, as meninas habitam inferninhos, meninos ejaculam débeis em seus leitos, homens se travestem para glória dos machões, mulheres acariciam-se delicadas, como pétalas de antúrios, casais traem com seus amantes imaginários e gemem, políticos tramam o destino da sociedade corrompida pelos capitalistas que se masturbam com o poder. Ainda assim, com todas essas certezas, o homem debruçou-se dentro de si e enxergou escuridão, vazia e infinita. O espaço, o tempo, nada. Apenas ele, vazio. Vazio e só, numa dimensão onde os mortos eram mais vivos que ele, a reinar sem alma em sua solidão lúgubre. E antes que viesse o dia com a claridade de todas as incertezas, caminhou de volta para o leito e entregou-se ao negrume da noite como se entregando à própria morte. Não viu outra coisa, senão a sombra que o abraçou lenta e suave; sedutora e silenciosa em imensas asas protetoras, às quais o homem rendeu-se como num pálido e tristonho ato de amor.

Finalmente, a porta se abriu. Dois, talvez três homens, em roupas de branco impecável, entraram com largos sorrisos consoladores e arrancaram-lhe as agulhas cravadas em suas veias.

Uma gargalhada abafou o silêncio.
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Escritor