Sobre o advento do velho normal





Por Eliecim Fidelis
Desde a instalação do surto pandêmico da Covid-19, uma dualidade julgada inevitável passou a ser abordada em textos e lives por especialistas e leigos: o velho normal x o novo normal.

Nos dias atuais, no que se refere à liberdade de lazer e de locomoção, até então contida pela pandemia, os indicadores já apontam o retorno das atividades em diversos segmentos da sociedade: trânsito movendo-se com lentidão e sob o mesmo estresse de costume; pousadas e bares abarrotados; máscaras esquecidas ou liberadas; termômetros escasseando-se nas entradas de restaurantes e shoppings; abraços e beijos tímidos entre amigos retornando aos poucos; paredões insistentes desafiando a lei; pressões comerciais para a realização do carnaval e festas de fim de ano: tudo isso mostra a caminhada gradual de retorno ao velho normal.

E quanto ao novo normal? Para alguns, este se caracteriza por novas formas engendradas para a vida cotidiana, no presente; outros falam de modificações futuras definitivas, inclusive no comportamento dos seres humanos. No primeiro caso, estaríamos diante de mudanças de hábitos em função das medidas de prevenção à propagação do vírus, as quais acabaram repercutindo na nas relações familiares.

Alguns casais aprenderam que tirar os sapatos ao entrar em casa, higienizar as compras e ajudar na cozinha, nada disso significa fazer favor ao outro, mas apenas um dever de cúmplices donos de casa; por motivos similares, outros casais potencializaram conflitos preexistentes, brigaram, agrediram e separaram; o que não é surpresa, uma vez que o relacionamento entre os seres humanos é apontado por Freud como uma das maiores fontes de sofrimento, ao lado da severidade da natureza e do confronto do homem com a finitude. De outro lado, os solteiros devem ter aprendido que o tempo que pensavam ganhar em bares e baladas hedonistas perdeu-se no que poderiam ganhar em noitadas de boas conversas e leituras; outros anseiam para que tudo volte ao que era; e outros ainda enveredam por trilhas não sonoras tentando abastecer o vazio da dor.

Se antes o lar era visto como um lugar ao qual retornávamos para descansar depois de um dia fatigante dedicado a fazer girar as engrenagens do sistema, durante a prolongada quarentena, cansados de descansar em casa, passamos a sentir saudades do giro da engrenagem. Mas tivemos também a oportunidade de aprender que a recompensa antes obtida pela distância do cônjuge e dos filhos pode ser enriquecida (ou não) no seio da vida familiar compartilhada, mesmo com a interferência do trabalho remoto.

Já no que se refere ao futuro pós-pandêmico, as discussões incluem desde aspectos que beiram a paranoia até possíveis alterações da forma de pensar das pessoas. Falam em uma expansão de consciência que fará com que o homem passe a enxergar além do campo material, vislumbrando dimensões transcendentais oceânicas; que o levará a optar pelo minimalismo, respeitar a natureza, arrepender-se do que fez ou deixou de fazer, tornando-se definitivamente criaturas mais amorosas, justas, solidárias, compreensíveis e altruístas.

Não sou tão otimista quanto a esse ponto, embora não se possa negar que os momentos de dor e sofrimento, como os observados na pandemia, tendem a realçar a sensibilidade das pessoas, despertando-lhes o espírito de caridade; mas há também aqueles capazes de boicotar vacinas, espalhar que vira jacaré ou lagartixa quem usá-la, e praticar atos corruptos para tirar vantagens do caos. Passados os momentos críticos de pesar e dor, sem demora o comportamento humano voltará a priorizar o consumismo e a busca de acumulação desenfreada de sempre. De modo que, afora as importantes mudanças nas configurações das relações econômicas e comerciais antecipadas e solidificadas pela mídia eletrônica durante a pandemia, o homem, não por maldade e sim por inevitabilidade, continuará como sempre: imerso em sua própria crise de medos, incertezas e angústias decorrentes da condição de desamparo que o leva ao egocentrismo e à indiferença perante o outro; afirmando seu amor à humanidade em geral, mas virando a cara para as pessoas famintas em redor; rezando e prometendo servir o povo, mas odiando quem pensa diferente, quem apresenta diferença na pele ou no cabelo, quem espirra alto, fala descompensado ou escolhe um parceiro diferente do padrão binário.

Porém, não podemos deixar de sonhar, mesmo com algum reforço da melatonina para o estágio REM. Nos sonhos, temos poderes extraordinários: podemos atravessar continentes, oceanos, paredes e muros. Desde que advertidos de que, ao acordar, de novo estaremos perdidos na mesma selva, ameaçados por panteras e leões, e guiados apenas pela dupla freudiana Eros e Tânatos. E a vida continua. Ainda bem, sob o signo dos que temem a Deus e amam a vida, e que continuam preferindo o usufruto das coisas simples: um abraço da mãe, um cheiro do neto; o jardim que cultiva; o ar que respira. Mas sem olvidar que estarão ao seu lado muitos dos que, entre subsolos e sombras, continuarão debruçados diante de um lago perene de águas paradas, encantados com a própria imagem.
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Escritor e psicanalista/fidelis.eli@gmail.com