Alcance





Por Martha Guedes
Da janela do quarto, ela contempla o que resta das dunas distantes, quase encobertas pela vegetação rasteira. Não as vê como gostaria, porque os telhados metálicos dos galpões se interpõem ao que lhe seria um alento, ponto de fuga único, mas desejado. Terá de contentar-se, pois não há horizonte possível em outro lado do apartamento além deste, que é voltado também para as instalações de tratamento dos esgotos do condomínio. Pelo menos, consola-se, vê uma vez ou outra um gavião em voo rápido e decidido ou um bando de avezinhas barulhentas, patos ou periquitos, como lhe sugere o exíguo conhecimento ornitológico.
De gente, gosta pouco. Prefere a conversa com os gatos, com argumentos e contra-argumentos, sem importar-se com a opinião dos vizinhos. Gatos e livros, que lê pelo Kindle, e sinfonias e óperas dos CDs “pré-históricos” são suficientes, considera. O volume do som é aumentado sempre que a música da vizinhança adentra sem convite o recinto sagrado de solitude circunstancial, que a cada dia mais se torna essencial. Não há que contar com a estima dos semelhantes, mas os gatos que vagueiam pelo condomínio demonstram simpatia. Um tanto interesseira, talvez.
O isolamento, embora providencial em muitos aspectos, tem amesquinhado a imaginação. Perdida a vontade de viajar, de conhecer lugares distantes, de natureza extraordinária. Nem sequer a estimula a lembrança de passadas aventuras pelos extremos do planeta, da curiosa deambulação pelas ruas e mercados das cidades visitadas. Em momentos de profunda introspecção, todavia, antevê sem contornos definidos a cidade com a qual lhe convém sonhar, embora não tenha a mínima certeza de que esteja apta a conhecê-la. E reconstitui como pode em imaginação o que leu sobre as ruas pavimentadas de ouro e cristal da cidade esplêndida, que tem fundamentos de pedras preciosas.
Em torno da lâmpada, uma mariposa circula e circula. Lá fora, mia o gato preto e branco, vindo de lugar algum para lugar nenhum. Assim como os dias da prisioneira de sua própria vontade, ou melhor, ausência de vontade. Não há perspectiva. Há o que se chama em teoria da arte visão táctil, próxima. Nesse ângulo cujos lados não se estendem, estão os telhados metálicos, os esgotos e os gatos vadios. Dois pinheirinhos, sacudidos pelo vento, próximos da janela, estão contidos. Lembram ciprestes.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura