O castigo chegou a cavalo





Por Marcílio Costa
Como acontece praticamente em todos os lugares pequenos, inclusive cidades menores e muito mais num lugarejo da zona rural, o dia a dia é uma rotina que se repete praticamente sempre do mesmo jeito, numa vida onde as coisas acontecem mais lentamente, no ritmo arrastado de um lugar que tem pouca novidade. Tirando as missas dominicais que aconteciam somente uma vez ao mês e que enchiam o lugar de muita gente que ia ouvir o sermão de padre Carlos Santiago ou batizar algum pagão, pouca coisa mudava a rotina de Jaguara. Amanhecia e anoitecia sem que tivesse maiores novidades, a não ser uma visita inesperada de alguma autoridade municipal, mesmo que fosse de terceiro ou quarto escalão. Mesmo assim, era “de caju em caju”, como a gente costumava falar na roça. A monotonia era tanta que até mesmo um carro quebrado era uma novidade que atraia atenção de muita gente, principalmente a meninada, que fazia fuzarca em torno do veículo, como naquele dia que um motorista precisou de socorro ao passar por lá. Era tanto menino em volta que teve uma hora que o homem perdeu a paciência:

- Sai daqui, seu pentelhudo - o homem gritou com um dos meninos que teimava em enfiar a cabeça na parte da frente do veículo enquanto ele tentava descobrir o defeito. Foi o bastante para a turma toda cair na gargalhada, uma gritaria só com garoto que ficou todo envergonhado e sem jeito por ter sido chamado de pentelho, expressão que anos depois se tornou tão comum na voz de Faustão em seu programa de TV, mas que naquela época era quase um palavrão.
Agitação mesmo aconteceu num domingo em que Jaguara recebeu um evento inédito. A gente não estava em Madri, na Espanha, mas ia ter a oportunidade de ver de perto uma tourada, só que nos moldes bem mais modestos e com toureiros improvisados, muito distante da elegância dos espanhóis, que bailavam até cansar o touro e no ato final matavam o animal com uma espada. Ali, era praticamente uma brincadeira, como um jogo de esconde-esconde no qual o toureiro se contorcia para escapar das chifradas. Tudo acontecia num curral que ficava próximo a uma charqueada, um galpão improvisado para abate de bois e preparo da carne de charque que seria vendida em Feira de Santana, um local onde a higiene não era o ponto forte. Pra ver o espetáculo, segurança zero. Todo mundo ficava pendurado no curral, inclusive meninos como eu, e ficava na torcida para que o boi não acertasse uma chifrada no toureiro tupiniquim.

Até a vida amorosa em Jaguara também seguia naquele ritmo lento, sem muita empolgação, sem maiores novidades. Fora marido e mulher, que já tinham família estabelecida, eram poucos os casais de namorados conhecidos, tipo namoro na porta, tão comum naquela época. Nessa mesmice sentimental, qualquer novo casal era assunto de interesse coletivo, tema de conversas e fofocas para saber se daquele “mato” sairia coelho e se as juras de amor iriam terminar no altar da igreja de Nossa Senhora do Carmo. Uma figura conhecida do lugar assumiu um namoro com uma moça que passou a morar por lá na casa de parentes. Ela não tinha tantos predicados, não era uma formosura capaz de balançar o coração dos jovens do lugar, mas fisgou o coração do nosso Dom Juan jaguarense. O namoro, é claro, chamou a atenção de todo mundo pela novidade e passou a ser acompanhado tipo novela de Janete Clair na Globo. O interesse era tanto que no dia que o rapaz foi dispensado pela nem tão jovem donzela a coisa foi tão séria que virou um acontecimento. Naquela noite as poucas ruas de Jaguara ganharam uma agitação incomum para o lugar. Como se fosse o bando anunciador que saia às ruas de Feira para convocar os moradores para a Festa de Santana, um grupo improvisado saiu batendo latas e arrastando uma simbólica mala para dizer que chegava ao fim o namoro mais vigiado do lugar.

Isaías Carneiro era aquele primo mais velho que a gente chamava pelo nome, embora a diferença de idade fosse quase de avô e neto. Mesmo casado há muito com dona Rosinha, um doce de pessoa que transmitia uma simplicidade chique - se é que me faço entender -, o casal não tinha filhos. Ele era um fazendeiro que morava há alguns quilômetros da sede, na fazenda Consolo, num casarão que ficava bem na beira da estrada. Isaías tinha uma Rural, o icônico carro da Willys muito usado na zona rural e que fez muito sucesso nas décadas de 50, 60 e 70 e que hoje ainda sobrevive Brasil afora nas mãos de colecionadores, inclusive uma muito conhecida aqui em Feira de Santana. Andar de Rural era um luxo para poucos, geralmente fazendeiros ricos que usavam o utilitário para enfrentar as estradas de terra batida da roça e ainda ir circular pelas ruas das cidades.

Como a fazenda de Isaías ficava a poucas léguas da sede do distrito - local onde hoje existe a escola municipal Isaías Carneiro, em sua homenagem -, ele muitas vezes deixava a Rural de lado e seguia até Jaguara montado a cavalo, principalmente no domingo que tinha missa. Isaías, que era padrinho de meu irmão Egberto, era muito envolvido com as coisas do lugar, tanto que certa vez liderou um mutirão para reforma da igreja graças ao dinheiro de fazendeiros como ele. Embora não fosse político, era sempre uma figura de destaque e escolhido para exercer alguns cargos e funções, como delegado calça curta, figura muito comum nos lugares menores, inclusive na maioria das cidades do interior. Foi como delegado que Isaías tentou inutilmente convencer minha mãe a não me deixar brincar com “os moleques" de Jaguara, depois que a gente arrombou a janela de uma casa com uma bolada. Isaías também foi juiz de paz, uma espécie de juiz de pequenas causas, sem formação jurídica, chamado para resolver qualquer pendenga. Naquele domingo, ele foi chamado a intervir no desentendimento entre dois homens. Um caso simples, mas com uma decisão inusitada. Levou os brigões para a igreja e depois de um sermão daqueles colocou os dois ajoelhados frente a frente junto ao altar e deu a sentença:

- Só vão sair daqui depois que rezarem e acabarem com essa briga besta - ordenou e foi embora de volta pra fazenda montado em seu belo cavalo.
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Jornalista