50 anos do Dia Nacional da Consciência Negra





Por Zulu Araujo
Poucas pessoas sabem que este ano, o Dia Nacional da Consciência Negra, completa 50 anos. E sua criação tem nome, endereço e CPF. O nome é de Oliveira Silveira, Professor, poeta, escritor e militante exemplar do movimento negro brasileiro que inconformado com as homenagens que se faziam a Princesa Isabel, como a grande redentora do sofrimento de milhões de escravizados, resolveu deixar os reclamos de lado e reverenciar aquele que de fato havia dado sua vida pela liberdade em nosso país – Zumbi dos Palmares.

O endereço também existe: inicialmente era na Casa Maçon. da Rua da Praia no centro de Porto Alegre e durante um período no bar da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), visto que havia muito receio à época, por conta da ditadura militar. Já o CPF é o da força, da garra e da resiliência da comunidade negra brasileira.

Mas Oliveira Silveira, não estava só, quando celebrou pela primeira vez o dia 20 de novembro, em 1971, como o Dia Nacional da Consciência Negra, no Clube Social Negro “Marcílio Dias” em Porto Alegre. Ele contou com o apoio incondicional dos seus companheiros do Grupo Palmares. A celebração contou com uma programação de recital de poesia e a apresentação de um estudo sobre o Quilombo dos Palmares. Ali nascia o reconhecimento do maior líder negro das Américas – Zumbi dos Palmares.

Zumbi não é um herói qualquer, nem assemelhado a tantos outros que foram criados pela elite brasileira para o seu próprio deleite. Ele não era duque, barão, príncipe ou oriundo da oligarquia colonial brasileira. Ele era filho do povo escravizado e entronizado como herói pelos descendentes desse mesmo povo, que foi às ruas, gritou se mobilizou e exigiu que ele assim fosse reconhecido. Zumbi é filho dileto da nossa luta de resistência contra a escravidão e toda a sorte de desigualdades que ainda continuam vigentes em nosso país. Por isto mesmo temos que saudá-lo sempre com toda pompa e circunstância.

Até porque, é dessa luta que o dia 20 de novembro de 1695 deixa de ser apenas o dia do assassinato de Zumbi, na Serra da Barriga, no Estado de Alagoas, para ser o Dia Nacional da Consciência Negra. Hoje, graças aos milhares de militantes do movimento negro brasileiro, em particular dos professores/as negros/as, o 20 de Novembro, é reverenciado não só nas escolas do país inteiro, como também nas ruas, becos e praças do país. Neste sentido, Zumbi simboliza não só as conquistas alcançadas nestes 50 anos, a exemplo da criação da Fundação Cultural Palmares, do Decreto 4877 (que reconhece as terras remanescentes de quilombos), a Lei 10.639, (que introduziu na grade curricular do ensino fundamental a História da África e da Cultura Afro-brasileira), a Lei de Cotas Raciais para o Ensino Superior, dentre outras, como também é a inspiração para que continuemos a luta para eliminarmos de uma vez por todas o racismo que continua infernizando a vida do nosso povo.
Por isto mesmo, não se iludam o racismo e suas mazelas (discriminação e desigualdades de toda ordem), continua presente e atormentando a maioria absoluta da nossa população: o extermínio da juventude negra está aí para não nos deixar mentir. Portanto, a melhor forma de homenagear esse cinquentenário é ampliar a luta contra o racismo, criar uma agenda comum, onde a defesa da democracia e a luta antirracista ocupem o primeiro lugar. Até porque com racismo não pode haver democracia.
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Articulista. Mestre em Cultura e Sociedade pela Ufba. Ex-presidente da Fundação Palmares, atualmente é presidente da Fundação Pedro Calmon - Secretaria de Cultura do Estado da Bahia