Até quando Neto cozinhará os presenciáveis?





Por Victor Pinto
Desde quando eu me entendo por gente na política - e não tem tanto tempo assim - sei que a eleição presidencial é marcante na disputa pelo governo do Estado. É uma mola propulsora que gera impacto direto na hora da escolha do voto dos baianos.

Sabedor dessa influência, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), busca desmistificar esse movimento tradicional da política baiana. Repete reiteradamente que o nacional não vai influenciar na disputa do Palácio de Ondina, fato refutado quase que à unanimidade pelos demais caciques que pude ouvir ao longo desse ano.

Alguns apontam que essa ideia netista decorre, justamente, por ele ainda não possuir ou não ter selado um acordo frondoso. Convenhamos que o ex-prefeito é um homem de palavra. Vale lembrar 2018, quando, apesar do passeio de Bolsonaro, o mandatário do DEM se manteve rente até o fim com Geraldo Alckmin (PSDB) com comício em Salvador e tudo. Naquele mesmo ano Cabo Daciolo teve mais voto que o então tucano na capital.

Com a chegada do União Brasil, da fusão DEM e PSL, ACM Neto tem dito que um nome para a disputa do Planalto deve sair em 2022. Creio que seja mais para uma composição do que um candidatura própria de Mandetta, ex-ministro da Saúde.

Um namoro enrolado tem Neto com Ciro Gomes - o tente outra vez do PDT. O jornal O Globo noticiou recentemente uma aproximação de Neto com Sérgio Moro. Ele flertou também com Eduardo Leite do PSDB. O PSD atualmente busca viabilizar Rodrigo Pacheco, do Senado, que era do DEM e migrou para o partido de Kassab, mas ainda possui certa relação com o baiano.

Mas e Bolsonaro? João Roma, se assim for candidato ao governo baiano, tende ser o dono do palco. Mas essa história de palanque aberto do netismo na Bahia pode ser para uma tentativa de colagem na campanha bolsonarista sem colar de verdade. Ou até mesmo casar no voto com Lula, mas difícil quando se tem o governo do Estado petista e um senador ex-governador da raiz do lulismo no páreo.

Palanque presidencial aberto pode resvalar em um erro. O fator nacional no local é histórico e representativo. A eleição de Jaques Wagner em 2006 passou por esse processo. O trabalho de marketing, à época, do candidato do Time de Lula foi decisivo na hora da escolha do voto, somado ao cansaço do carlismo. Dessa vez há um cansaço do petismo, de fato, mas Lula é uma peça importante que volta ao tabuleiro do jogo.

Lendo a biografia de Irmã Dulce escrita por Graciliano Rocha, livro da editora Planeta, vi o relato de outro momento da política baiana, onde o nacional foi decisivo. No capítulo 11, Moeda Eleitoral, ele recorda a eleição de 1950. Juracy Magalhães liderava todas as intenções de voto. Apesar de uma campanha forte de fake news que envolvia a morte de Lauro de Freitas contra Juracy, a derrota para Régis Pacheco foi sacramentada quando, antes longe da disputa, o imbatível Getúlio Vargas resolveu pedir voto. Pacheco venceu.

“Quando se pronunciou contra mim [Getúlio contra Juracy], me derrotou. Vargas ainda era o rei”, disse o próprio Juracy Magalhães em relatos a Minhas Memórias Provisórias do CPDOC da FGV, também feita a referência na biografia da Santa.

Lula vem forte e vai exercer essa influência como outros pleitos já mostraram. ACM Neto quer sentir o termômetro para não tirar nenhum compromisso agora que não consiga desfazê-lo mais a frente e assim não ganhar um rótulo de traidor. Mas com a antecipação da campanha, segue cada vez mais acirrado esse debate no afã de construções regionais. Veremos até quando a paciência será mantida e até quando segue esse cozer.
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Jornalista // twitter: @victordojornal