Rampeliz





Por Martha Guedes
(Para Luiza e Inácio. Para Carolina)
Ninguém sabe de onde veio e nem mesmo pra onde vai. Todos notam que é alegre mas bem feio, esse rapaz. Rampeliz é como o chamam. Sobrenome ele não tem. Pai ou mãe, se é que tem, não lhe deu um só vintém.

Vó Cininha se benzeu: “Cruz credo, parece o Cão!”. Mas, Juju, que gosta dele, atalhou: “Não acho, não”. E compadre ou comadre, que o vê sempre ao passar,  lhe pergunta: “Ei, Rampeliz! Que tem hoje pra contar?”

Muita história ele conta de uma mata bem fechada, onde o sol nunca desponta porque a mata é encantada.

- E quem vive num lugar como esse, Rampeliz?

- Minha madrinha, Seu Romão, com o bichinho de estimação.

- Sua madrinha?! E seus pais? Onde eles agora estão?

Não responde Rampeliz e, sorrindo, se despede. “Tem arte esse menino!” – desconfia o barbeiro Mamede. Logo vem quem dá apoio ao barbeiro linguarudo e levanta a suspeita: é parente do Chifrudo. Também acha o escrivão. Três pancadas na madeira e a cuspidela no chão.

Todo dia de manhã os meninos vêm brincar. Grita “É uuuhhh?” quem procura, “Uuuuhhh!” responde quem se esconde. Pula, pula amarelinha, pega a casca de banana, de um só pé pra não errar. No carrinho de rolimã cabem três e ninguém mais. E a bola corre e pula, além da vidraça vai. Chiii...

- Quem fez isso? – brada o velho. Rabugento ele é.

- Foi você, não foi, Rampeliz?

- Não, senhor – gagueja o coitado.

- Quem foi, então? Diga logo, seu moleque malcriado!

***

Chove forte, o vento sopra com uivos de arrepiar. Reza Joana, treme Maria. O vento, sem devoção, a vela do santo apagou. Abrigado no beiral, passarinho não dá um pio. Mamede cobriu o espelho, guardou a navalha, também. De raio, ele morre de medo. Vó Cininha, aquecida por cobertor dorme-bem, sonha que é moça e sorri, de vento e raio esquecida. A chuva, sempre a cair.

Juju não dorme e pensa. Está triste, Juju, por quê? O tempo vai melhorando. Já se ouve o som espaçado dos pingos que caem do telhado. Mas, Juju está inquieta.

Aos poucos, aquece o sol. Cacareja e cisca a galinha. No terreiro, o sabiá canta no abacateiro, como gosta de cantar. Pão quentinho da padaria, com manteiga, que delícia! Como novo, tudo está. É que a chuva, dessa vez, bem caprichou ao lavar.

- Vamos brincar, Juju? Cinco pedras redondinhas cabem na concha da mão. Pra fazer passar as pedras pela “trave” da outra mão, é preciso ser muito certeiro nesse jogo de capitão. A noite vem chegando e Juju vai ter de ir. Toma sopa bem quentinha. Aonde vai Rampeliz? O que ele tem pra comer? Onde pode ele dormir?

Pode ser que a madrinha alguma coisa lhe dê. Ahn... ela está bem longe... Talvez alguém mais bondoso que o velho ranzinza da praça lhe traga café com leite e um pedaço de pão. Quem sabe, um coração amoroso arranje um cantinho na varanda e mesmo uma coberta velha? Não?

Certa vez, Rampeliz segredou a Juju que em noite de lua clara ele vê, no espelho d’água, a turminha lá do céu. Toda ela é de estrelinhas, alegres, engraçadinhas, que descem para brincar. Dançam na lagoa. E a música agita o ar. Quando a festa se acaba, não há frio, não há nada que possa incomodar.

Quase sempre o tempo é bom, ainda que chegue o verão. Faz calor, mas o vento da serra, que traz o perfume da mata, refresca o corpo e a alma. À noitinha, contando casos, histórias de longo passado, os mais velhos, em cadeiras de lona, suspiram a saudade, na calçada sentados. Mas, nem tudo são brisas suaves. O inverno, a seu tempo vem. E o vento frio da serra traz angústia à alma também.

A vagar pela noite, faminto, sem lugar onde  repousar, Rampeliz vai direto à lagoa, esperando em festa encontrar as brilhantes criaturas do céu. Nada vê além de espessa nuvem sobre o espelho embaçado da água. Menino Rampeliz, meu canto é de ninar... Psiiiuuu... Deixem, grilinhos, Rampeliz dormir...

- Parece um anjinho de luz – comoveu-se Vó Cininha, cobrindo Rampeliz com a manta azul tricotada. No rosto do velho rabugento uma lágrima tímida escorreu. Mamede, arrependido, no quarto rezava e o escrivão na madeira não bateu. Juju, pensativa, não chorava.

***

Há quem diga que em noite de lua Julieta ronda a lagoa. Traz na mão pedrinhas redondas, como tesouro resguardadas. Muitos a viram a conversar sozinha. Outros afirmam que ela até dançava.

-----------------------

Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura