Crônica de uma morte por anunciar





Por Martha Guedes
Num dia como outro, igual àquele outro, num dia como tantos, iguais a um dia qualquer, Grimalda decidiu que iria morrer. Nada especial, morreria em sua própria cama, vestida com a mesma camisola que vestiu na noite anterior, quarto limpo, arrumado, tudo em seu devido lugar. Um bilhete no patamar, avisando a quem porventura notasse que havia um pedaço de papel em frente à porta. Seria suficiente. Tinha pensado em uma mensagem pelo WhatsApp, mas não achou apropriado, beiraria o ridículo. Que novidade há em morrer?

Havia considerações a fazer. Precisava rever a apólice do seguro de vida. Não tinha certeza de que cobria as despesas com o funeral. Ainda que fosse um tanto perdulária e jamais mantivesse uma conta de poupança sem que a saqueasse para pagar as prestações que se avolumavam no extrato do cartão de crédito, desagradava-lhe deixar mais dívidas a pagar.

Considerou, também, que ninguém daria o devido valor ao pote de café Le Creuset, de produção limitada. Quem ficaria com a jaqueta que vestiu uma vez apenas, para assistir ao concerto em Riga? E com os sapatos italianos? As echarpes e pulseiras, as blusas e o casaco de couro? Talvez devesse adiar, morrer em outra ocasião. Por que fazer hoje o que se pode fazer amanhã?

Outra coisa que a incomodava era imaginar a cena do velório. Conversinhas animadas, risos, alegria de reencontro, enquanto ela, triste figura!, estivesse ali, esticadinha no caixão, quase totalmente esquecida – um prenúncio de como seria lembrada, tão logo terminasse o evento. Anos atrás, fez até uma lista das pessoas a quem não queria em suas exéquias. Nela, a amiga tagarela mais próxima e, mesmo, a própria irmã, sempre ciosa em arranjar no caixão, de modo artístico, as flores sobre o defunto do momento, contente como se estivesse a arranjar um buquê de noiva.

O túmulo era outro ponto a considerar. Queria que a pusessem no mausoléu da família, na cidade natal. Iria pacificamente dentro de uma “latinha”, como dizia. O problema era o erro gramatical da lápide, permanentemente gravado, jamais corrigido, apesar das instâncias aos que ainda moravam no lugar para que o fizessem. Erro cometido pelo marmorista, o que muito irritou a mãe de Grimalda, afeita às regras da gramática de Eduardo Carlos Pereira.

Enquanto cogitava tais dificuldades, apareceu-lhe o Anjo da Morte. Não foi difícil reconhecê-lo, pela compleição esquálida e palidez da face encovada.

- Está pronta? Vamos logo, tenho muito trabalho em minha agenda, nada de indecisão, por favor.

- Seja mais gentil, é um momento grave.

O anjo pareceu não ouvir e consultou o relógio.

- Bonito relógio! – tentou Grimalda bajular.

- Um Rolex, obrigado.

- De ouro?
- O que você acha? Acaso usaria um “made in China”?

- Não, claro que não! É que pensei...

- Pensou que, sendo eu de outra categoria angelical, a mim seria dado usar apenas falsificações? Tenho antecedentes aristocráticos, se quer saber.

- Queira me desculpar. Sempre imaginei que anjos decaídos em tudo fossem falsos.

O anjo, ajeitando ao pescoço o drapeado da túnica, exclamou, impaciente:

- Vamos! Saia logo dessa cama!

- Deixe, pelo menos, que estire o lençol e dobre a coberta.

- Tudo bem, mas seja rápida.

- Quanta pressa! Enquanto arrumo o quarto, não dá pra você buscar alguém mais da sua lista? O ministro da economia, por exemplo?

- Não está na lista.

- Poderia estar...

- Teria mais trabalho do que tenho. Há muita rotatividade ministerial.

- Entendo. Talvez a barca não aguentasse o peso e Caronte viesse a reclamar na justiça por sobrecarga de trabalho, também.

- Trabalho, trabalho... além da política, a pandemia.

- Pois é... Se depender de mim, você descansa um pouco. Por mais uns dez anos, talvez. Aceita um chocolate?

O anjo não recusou. Aceitou o cafezinho Nespresso, alguns cookies, acomodando-se como pôde na poltrona estreita do quarto.

- Está bem. Voltarei mais tarde – disse enquanto desaparecia. - Não me chame à toa.

- Fique frio. Não vou chamar.

E pôs no toca-discos o CD de Titta Ruffo.

- “Si può! Si può! Signore! Signori!...” – ecoou pelo quarto afora a voz exuberante do barítono.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura