O Novo Ano Velho dos Mesmos





Por Eliecim Fidelis
Ele vivia na correria, só parava pra engolir um fast-food ou um café adoçado - de amargura basta a vida – dizia. Nada de mulher e filho por agora. Só após os quarenta, quando acreditava estar vivendo folgado. Não queria ser como o pai, nem que o filho passasse o que passou. Na escola, escondia-se atrás da mureta para os colegas não verem o pai chegar sem carro. Mesmo assim era melhor do que na escola pública anterior onde o pai nem levava e buscava.

Não teve infância e juventude, precisou pular logo para a vida de trabalho. Começou vendendo cafezinho e cigarro a retalho. No dia que estreou como camelô o rapa carregou tudo. Ficou um tempo parado depois aproveitou um curso free e virou microempreendedor, mas viu que por aí não ia realizar o sonho: uma vida financeira melhor que a do pai, e um herdeiro para criar como gente. Fazia sua parte: frequentava terreiro, benzia fitas no Bonfim, estudava e trabalhava, mas a burocracia lhe desanimou.

As coisas pareciam melhorar ao conseguir uma vaga de auxiliar em uma empresa do Polo. No dia do contrato, procurou Sulamita para agradecer, sem deixar de caçoar da data: primeiro de abril. Mostrava serviço na companhia, caprichava, mas nada agradava ao chefe com cara de alemão. Não era de fugir da luta, mas percebeu que a carga horária sem extras lhe tirava o tempo de estudo para tentar pela quinta vez o concurso público. Agora algo lhe dizia que uma das treze vagas era sua.

Já pensava em largar o emprego: “deixo ou não deixo?”. Um dia Sulamita lhe disse que não eram boatos os cochichos sobre a empresa: ouviu em uma reunião a conversa em que o chefe bateu o martelo na desativação da fábrica. No dia da despedida com os colegas, uns lamentavam e outros esmiuçavam os podres do chefe, e ele aguardava Sulamita aparecer para trocarem alianças. Segundo os esmiuçadores, ela “estava em sua última reunião com o chefe”.

O adiantado da barriga de Sulamita não dava mais pra esconder, e ele se encantou com a ideia: “meu guri vai chegar bonito e forte; vou lhe ajudar a fazer tudo que não pude”. Dedicou-se aos estudos sonhando com mais uma vaga do concurso para a noiva, que também sonhava desde que se iniciara como secretária do cara de alemão. As provas seriam realizadas em breve com resultado previsto para o fim de dezembro: “Sula, esse vai ser o melhor Ano Novo pra nós dois!”.

Roucos de cantarem desejos de um Ano Novo diferente, no raiar do dia primeiro de janeiro dirigiam-se ao ponto de ônibus: Zedasilva na frente, atrás Sulamita trazia um guri parrudo nos braços. “Pera aí, Zé, ele tá pesadim!”. Ao deter os passos, ele viu alguém parecido com o ex-chefe passando de carro e mostrou à companheira: “Ele tá de volta na BMW cheirosa”.
-----------------------------------
Escritor e psicanalista - fidelis.eli@gmail.com