O jardim emerso do frio





Por Martha Guedes
No pátio, meninos guerreavam. Lançavam bolas moldadas com a neve que acabara de cair. Desviei-me de algumas e entrei no vestíbulo pomposo do Hermitage. Despojada dos acessórios que protegiam do vento gélido de São Petersburgo, iniciei a trajetória interna no museu. Vi o que restou das alcovas requintadas e revivi o que há anos me fez viver a literatura, pela qual tornei-me cúmplice de amores resguardados e explícitos, de suspiros de profunda tristeza, de risos e vozes regozijantes do amor recém-chegado. Respirei os ares aristocráticos da Rússia imperial com certa familiaridade concedida pela imaginação.

Vez ou outra, contemplava o Neva sombrio, emoldurado pelas cortinas envelhecidas das janelas. Não esperava ver muito, pois o tempo era escasso e bem restrita a possibilidade de reconhecer o acervo como gostaria, em grande parte indisponível à visitação. Subi e desci as escadas de mármore. Desci mais, até ao subsolo, onde alguns objetos de antigas civilizações asiáticas, em processo de restauração, estavam dispostos. O olhar sobre eles foi quase de relance, o que me fez lamentar a inépcia em planejar e melhor administrar o tempo de viagem. Em duas horas teria de deixar a cidade.

A pressa não me obstou parar diante de uma vitrine em que estava o corpo mumificado de uma princesa japonesa, de alguma dinastia da qual não me recordo. Senti como se me estivesse congelado o espírito - pelo pesar, por algo indefinido que me aproximava daquela figura delicada, parcialmente desfeita, encoberta por trapos de uma seda preciosa, cujos desenhos, maravilhosamente nítidos, lembravam um jardim. Nem mesmo a pele enegrecida das mãos e a ultrajante exposição da arcada dentária, alongando os dentes ainda intactos, impediam-me de reconstituir a beleza daquela que teria sido graciosa e suave donzela, como convém à imagem de uma princesa do antigo Japão. Não mais havia brilho no longo cabelo negro. Parecia ter-se o brilho refugiado nas flores da seda e preservado da investida da Morte, alheia à emoção que transudava como gota de orvalho em cada pétala. Deixei-me conduzir pelo brilho ao jardim. Lá estava ela, discreta princesa, a deambular pela alameda florida. Curvei-me, pelo respeito que lhe era devido. Ela sorriu, condescendente. Um raio de luz, filtrado pela ramagem, tornou em névoa o jardim. Ao meu lado, a Morte contemplava a vitrine. Sorriu-me.

Lancei um olhar para a princesa. Para a Morte, um meneio. E saí.

Dmitri, o motorista do hotel, estava me esperando lá fora. A caminho do aeroporto, praguejava em russo, enquanto se desvencilhava no tráfego confuso. Afirmei-lhe que voltaria.

Ainda a sorrir, Morte?
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura