Anotações de uma tarde sem propósito





Por Martha Guedes
Nem mesmo creio que tivesse ocorrido a Manuel de Falla expressar em “La Vida Breve” algo que fugisse ao espírito festivo e, ao mesmo tempo, trágico espanhol. Um baile concorrido por belíssimas jovens de negros cabelos e elegantes cavalheiros de olhar profundo, voláteis e vertiginosos em movimento, graves e dramáticos quando à dama permitem que lhes falem o corpo e a alma. Por que, então, a imagem recorrente de uma dança macabra? De esqueletos rodopiantes e sorrisos vazios em bocas desdentadas?

A música canta o amor desditoso, o sofrimento pela traição e a morte pela desesperança. Tem as cores da Espanha, traz o perfume dos ramalhetes que nos oferecem as ciganas na Plaza del Sol. Perfume e engano. O destino nas linhas da mão, indecifrável e traiçoeiro, tortuoso como as ruelas da velha Madri. Dança a Morte, revestida do manto em que desabrocham flores rubras de sangue incauto, em fundo negro de perdição.


O andamento presto torna indistintos contornos e nuances. Misturam-se as cores no rodopio alucinante da voluptuosa dama de órbitas vazias. Quem a faz parar? Mesclam-se as lembranças e o amor sofrido acaba por fazer-se desejável. É delicado o sapato, mas forte o bastante para marcar o compasso. Para bruscamente interromper a dança, até que outro movimento se inicie e desenvolva. E, rápido, envolva tudo que estiver ao redor, em torvelinho que parece jamais ter fim. Promessa falaciosa de êxtase antes que a lâmina penetre o coração.
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura.