O doce fruto da aridez





Por Martha Guedes
Frequentador de feiras livres, contente em aspirar o cheiro de frutas e verduras frescas, dispostas em sacos e caixotes em meio à lama pisoteada, meu filho me trouxe, além de algumas amostras das vistosas dádivas da terra, um punhado de umbus.

Havia quase me esquecido da existência dessa frutinha tão particular à região onde nasci, desde que aceitei, por determinação de ordem prática, a prateleira do supermercado como substituto da barraca e do caixote meio sujo, onde tudo se mistura em vívida e colorida confusão. Foi com prazer de quem recebe uma raridade que me pus diante da tigela de umbus, contemplando-a quase em êxtase. Estavam maduros e meio translúcidos. Como iria comê-los sem que o suco, como um jato, lambuzasse a mesa e a mim, que detesto todo tipo de sujeira e desordem, intolerante a farelos de pão cortado espalhados além da tábua?

Recorri à lembrança daqueles dias de infância e juventude, quando nenhuma preocupação de tal natureza me impedia de deliciar-me com os umbus que Mamãe trazia da feira. Ataquei os que estavam à minha frente. Espirraram, gotejaram e deixaram na boca o gosto doce e exótico que nenhuma fruta que não provenha dos descampados áridos do Nordeste certamente tem. Gosto de indescritível suavidade, que sabe aos refrescos servidos na varanda em tardes de calor e lembra a vida sem o rigor do horário, a escorrer languidamente em consonância com o movimento do sol. Vida preciosa que Deus nos deu para que muito a aproveitássemos pelos sentidos. Ouvidos atentos ao cântico do passarinho, olhos que seguem a rápida trajetória do gavião e o movimento intenso da formiga, capazes de discernir a mudança das estações não apenas pelo calendário.

O líquido, dulcíssimo, me trouxe de volta o sabor do Nordeste que transparece nas páginas de Casa Grande e Senzala. Provei, na cozinha, os doces de nomes sugestivos que aguçavam apetites de ordem vária e satisfação nem sempre condizente com a promessa feita ao santo, na capela contígua.

Retrocedi à minha ancestralidade mourisca. Deixei que os dedos escorressem pelo azulejo frio, de flores azuis. Aticei com a longa tenaz as brasas do fogão a lenha e inspirei o cheiro que saía da panela de ferro, reconhecendo as ervas que compunham o tempero. Andei, então, do Alentejo de casinhas caiadas, onde na mesa tosca fumegavam delícias, até às terras do reino de Granada. A água, fresquinha, corria pelas valetas que a traziam da Serra Nevada. Bebi, recolhendo-a com a concha da mão. Refeita do calor, tornei à cozinha da casa-grande, onde tomei ainda um refresco, o sumo melífluo da cana-de-açúcar.

Refrigerada, mas não de todo satisfeita, estava outra vez diante da tigela de umbus. Somente caroços e restos destroçados do que foram cascas brilhantes. Ficou-me a doçura gravada na alma. Saudade do Nordeste que foi e que talvez ainda seja. Que será, enquanto em mim prevalecer o frescor do espírito soprado pelo Criador, manifesto na essência da frutinha humilde, esquecida nas paragens ardentes do sertão.

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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura.