Não Olhe para Cima





Por Eliecim Fidelis
O propósito deste texto não é resenhar ou trazer detalhes do filme da Netflix. Melhor que essa tarefa fique para cinéfilos mais preparados. O enredo do filme traz, porém, a oportunidade de tocar em outro ponto sobre o qual temos refletido: o comportamento das pessoas diante de fatos reais, científicos, sociais, políticos, ou mesmo religiosos.

Sem entrar em discussão filosófica ou doutrinária, as coisas e fatos da realidade parecem ter perdido sua consistência material, como uma expressão do Real, passando a receber uma qualidade anímica poderosa que permite moldá-los à conveniência; por exemplo, as terras, as águas, o movimento dos astros e fenômenos da natureza - tudo não passaria de algo que pode ser enquadrado na moldura polêmica da polaridade.


Diante da pedra do caminho, de Drummond, não há mais porque retirá-la ou contorná-la, uma vez que ela não está mais lá. Basta moldá-la à finalidade imediata. Então, não há mais pedras no caminho, salvo para um grupo de turistas surpreendidos em um passeio no Capitólio. Águas também não há, salvo para agonizantes desabrigados das chuvas. Não há um meteorito lá em cima, salvo para dois cientistas ilusionistas que – como pensam outros - inventaram essa ideia absurda com a finalidade de alienar os seres humanos. Também não há vírus mortal na terra, salvo para milhões de defuntos conspiradores.


Pelo enredo da sátira: os cientistas, imaginando colaborar para preservar vidas, pedem ao povo e aos governantes que olhem para cima, constatem o perigo e adotem as soluções necessárias. As autoridades desconversam, escondem o fato e aconselham a não olhar para cima, pois o que está lá – dizem - não passa de um embuste inventado por conspiradores, que, com suas descobertas mirabolantes, querem impor a ciência acima de tudo, escravizar o homem e dominar o mundo como um Deus. E esses respondem: são todos uns negacionistas, incrédulos na ciência, a única capaz de mostrar a verdade. De outro lado, imiscuindo-se entre a ciência e o governo, o capitalista mostra que tudo pode ser contornado, desde que seu fluxo lucrativo não encontre barreiras. Há ainda a grande mídia, onde tudo transparece de modo ridículo e achincalhado, desde as pesquisas científicas até a divulgação das informações, em meio a galhofas e piadas de mau gosto misturando-se o publico e o privado.


A essência do filme poderia resumir-se à expressão do título: Não olhe para cima, o que abre brechas para olhar em outras direções: para o buraco crescente da camada de ozônio; para os incêndios e desmatamentos criminosos; para a fome e a miséria eternas em redor. Mas, quem sabe, olhar também em mais uma direção: para dentro, interrogando a alteridade defronte do espelho.
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Escritor e psicanalista - fidelis.eli@gmail.com