“Mulher virtuosa, quem a achará?”





Por Martha Guedes
A mão ressequida alisa o labirinto onde pequenas flores, emaranhadas, compõem as bordas da camisa de cambraia. Estirada na tábua de passar, a roupa do bebê já foi umedecida em goma bem ralinha e as brasas do ferro, avivadas ao fole, não aquecem mais do que convém. Pequenas almofadas integram o arsenal. Já dispostos, os cabides de pauzinhos com ganchos de arame logo mais serão vestidos.

Aonde vai o pensamento de Dona Julieta? Talvez vagueie pelo caminho, tantas vezes trilhado, da Biquinha e traga da água cristalina e do mato cheiroso doçura ao coração e leveza ao gesto. Desliza o ferro pelos “caminhos sem fim” da toalha de linho dos dias de festa. No varal, a camisa e o vestido vaporoso se põem a dançar, soprados pelo vento. Prenunciam o encontro quem sabe amoroso no baile do clube da noite de reveillon.

Fosse vivo Salomão, por atributos da mulher virtuosa teria as mãos hábeis de Dona Julieta. Mãos que conformam alegria, esperança e ilusão, sobre a tábua tosca onde tudo se passa. Pois tudo irá passar.
E, ao passar, zelosa Julieta, quem irá conformar os fios do tecido que há muito se esgarçou?
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Viajante solitária e apaixonada por música, urbanismo e arquitetura.