Gostaria de casar e também contar mentiras





Por Gerson Brasil
Dear
“Gostaria de casar. Não fiz muitas coisas, mas passei no teste de Rorschach e os examinadores consentiram a personalidade, acrescentando coisas, suprimindo medos, inconformismos, o delicioso prazer de ser ambiciosa e exaltando a disposição e a confiança de fazer o que é certo e deixar de lado o egoísmo, pendências fora do arco de aflições, devido ao modo como vivo, pouco importa se faz calor ou não, e se estou na rua ou num bar, na companhia do vinho. Essas questões da alma sempre me aborrecem e não vejo como empregá-las de maneira efetiva e na perspectiva de ganhar alguns dólares.

Há sempre gente com a bíblia do caráter na língua e solta torna-se um perigo, na exploração de conselhos e testes que garantem o comportamento ideal, ou, pelo menos, aquele de menor aresta, com a exigência de se tornar modelo, para os resistentes poderem encontrar um lugar adequado, seja na bicicleta ou no trabalho.

 

Angélica da família dos Uribes andava de bicicleta, estudava e fora das horas importantes aconselhava-me a esculpir um lugar. Perguntei se a vida dependeria disso e ela respondeu que não, mas poderia fazer falta em algum momento, mesmo estando eu de posse de uma navalha. Detesto navalha e nunca aprendi a pedalar bicicleta, donde o suficiente para prestar atenção apenas nas roupas e nos cílios da senhora do número 328, postada na Alameda das Flores.

 

Em certas horas, estaria disposta a abrigar algumas mentiras, poderia acontecer, va bene, um altruísmo qualquer, sem exigência, possivelmente para aplacar uma dor de cabeça repentina; nunca manda a mensagem, aviso, nada, é como o primo da Patagônia, aparece de repente; tento repor os cabelos e termino vencida pela imprudência da visita. Não é indesejada, mas ficaria bem se mantivesse distância, sem o beijo de cumprimento e o apertar das mãos como se estivesse trocando as rodas do carro.

 

Certo caminhar, ir adiante, seguir em frente, mentir, torna-se, por desacordo ou por insatisfação, afastado da tolerância, máculas, que assustadoramente se transformam em fonte de atritos e repugnância, nunca encontrada, nem mesmo nos meliantes, a infligir perdas e danos, a quem por azar espie no lugar errado, na hora errada, mas também por negligência, ou por serem cartesianos, cristãos absolutos.

 

Mentir não é como ir ao cabeleireiro, ou raspar as pernas, colar esmalte nas unhas; dedicação de relevo para algumas pessoas, que sabem devidamente onde colocar os pratos, talheres, boas causas. Ferozes antitabagistas.

 

As mentiras, presumivelmente, os levariam a duvidar da vigilância decorada e praticada com lealdade; na rua, na cafeteria e principalmente nos colégios sob o augúrio do colegiado de professores. Asi es como se hace.

 

Você gostaria de casar com uma mulher que mentisse, e dissesse a verdade com as mesmas palavras, sem alterar o som, com cada pronúncia silábica a mostrar a pertinência do que estava sendo dito, e como complemento jogasse tênis, fizesse panquecas maravilhosas e molhos que adornariam peixes e carnes, sem corromper os sabores, provenientes do mar e das fazendas, e indicando qual o caminho mais próximo da gula, sem mexer na vaidade e na balança?

 

Nadja casou com Henrique, estão morando no Uruguai. Recebi cartão postal, de difícil leitura, fiquei pensando porque a pressa na hora de escrever, será que logo depois foram para a cama, ou a obrigação do comunicado provocou desespero. Detesto cartão postal, mais ainda as informações, que não se dão conta da insignificância, mesmo se anuncia o esplendor da Praça São Marcos. Não relata o aborrecimento com o chuveiro do hotel, a discussão, bisonha, porque o vestido desaprovava a estética e a medição de quem veste terno, sonha em comparar ações de empresas, mas o cálculo estaciona na dosagem da anestesia.

 

Conheci o casal na 9 de Julho. Era suficiente naquele verão de chuvas breves; molhava e secava rapidamente, sem trocar os passos, como três martini, ou duas doses de uísque quando a cidade deixou o barulho lá fora e agora tiros, passos apressados, sirenes da polícia, se fazem presentes. Foi um encontro rápido, em meio a pipocas e som de violino insistente em tornar a avenida uma casa acolhedora. Poderia ter perguntado se eles mentiam e se isso causava felicidade. Talvez, não com esse positivismo, mas sim o despertar. Como o dia começa pela manhã, despertar feliz é uma dádiva, a que poucos têm acesso.

 

Tentei reparar a burrice cometida e telefonei para outro casal. Amigos, desde a faculdade e inimigos quando estava estudando para o concurso das duas vagas de advogado na Estatal do Petróleo. Não se conformaram com a minha vitória e a derrota que os abraçou. A mágoa subiu de preço, principalmente, porque providenciaram a matrícula; participei sem esforço denodado apenas com a quantia cobrada, bem maior do que a passagem de metrô, mas sem provocar protestos, como o de janeiro de 1976, em que as flores do bairro em que moro foram substituídas por pedras e bolas de gude arremessadas por atiradeiras.

 

Perguntei se eles falavam a verdade entre si. Disseram que era uso habitual, assim como a escova de dente. Rapidamente cheguei à conclusão de que mentiam e perguntei se também praticavam a mentira. Responderam que não, mas acrescentaram que ainda não havia tempo, embora convivessem com o clima da cidade há alguns anos. Recordo quando ainda eram adolescentes, na Praça das Rosas, de mãos dadas, sorrisos escancarados e carabineiros insolentes.

 

Talvez eles estivessem ainda rancorosos, com o fato de eu ter passado no concurso e sequer constaram na lista de reserva, para o caso de haver complicação com os papéis de alguém que se mostrou também eficiente, mas não tinha firma reconhecida.

 

Pensei em Helena, dois quarteirões em direção a Avenida 25 de Março, sempre mergulhada na altivez, bem quista, de poucas falas, poucas letras, e casamento constituído na união dos corpos e dos espíritos, que o marido trazia todo dia quando chegava a casa e depositava sobre o lugar onde se guardava o santuário de mentiras e verdades e também alguns santos renomados sob o olhar de Savonarola, de tez e olhos rígidos, sem benevolência, numa gravura emoldurada e pendurada na parede, e ao qual Helena de espírito santo devotava o amor e inconfidências.

 

Helena Costa não mentia, nem dizia a verdade, e casou com Pablo de Assis Toledo de Miranda. Uma mulher alta, bela, cultivava apaixonadamente a missa e o carteado a granjear fortuna, acompanhada de cigarros e uísque, pero, con gran respeto, em domingos matinais, enfumaçados, mas sem sexo, terminantemente vetado. ‘A carne nos distrai e precisamos ficar atentos ao jogo para não lamentarmos as desgraças impingidas pelas perdas. Somos uma família, nada nos romperá’.

 

Estudei na faculdade de direito de Santa Cruz, conheci o poeta Mário Peixoto, as bocas se aproximaram, fiz trabalhos voluntários, lendo histórias escritas por autores que presumivelmente gostariam não de escrevê-las e sim de contá-las; tem mais sabor, não é preciso cortar, acrescentar, colocar a mão na cabeça, gesto inútil, enquanto as palavras correm em direção ao inferno, sem constrangimento.

 

Mas no outro dia o editor leu, pediu algumas reparações, e ficou entusiasmado. ‘Segue em frente, é disso que precisamos, o leitor está ávido por histórias como essa’. Nunca me deu o endereço do leitor e nem as multas de trânsito recebidas.

 

‘Você sabe que o leitor gosta de se ambientar na trama aos poucos, vendo o desenrolar da escrita ali, bem ali, ao alcance das mãos que seguram o livro. ‘Já cheguei à página 56 e ainda não sei de que se trata, estou adorando esse romance. Este libro me queda bien, los pantalones no tanto, mas não consigo alcançar a página 60, me parece bem distante e não sei se algum ônibus passa por lá’.

 

Será que o escritor está mentindo, e sem escrúpulos me fatigando a madrugada? Se acabado é uma injustiça, logo eu que não durmo apressadamente, como as outras pessoas, para no dia seguinte encontrá-lo na presença ou na ausência de alguém que um dia ri de amores, por necessidade de fazer algo e como não tinha uma pedra para jogar no canal ou na porta de uma daquelas casas horrorosas, casas que nem abrigavam uma rua, era como se fossem esses vilarejos que não existem, a não ser que se conte uma história qualquer, pouco importa se é verdade ou mentira”.
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Jornalista e escritor
Ilustração: Aline Charigot (Madame Renoir, obra deRenoir. 1885. Museu de Arte de Filadélfia, Filadélfia)