Bipolaridade e liberdade de escolha





Por Eliecim Fidelis
As questões polêmicas que caracterizam o mundo contemporâneo, assim como o advento das eleições no Brasil, levam-nos a refletir acerca da bipolaridade e da liberdade de escolha. Tomando como base a concepção de mundo descrita no Gênesis, desde lá podem ser identificadas as bipolaridades que marcaram para sempre a humanidade. A partir da primeira criação divina: céu x terra, de divisão em divisão e de multiplicação em multiplicação, surgiram muitas outras duplas: luz x trevas; manhã x tarde; águas x firmamento; luzeiro noturno x diurno.


E tudo foi se completando até o sétimo dia, quando foi concluído o aparato divino. Se parasse por aí, as vicissitudes da vida poderiam ser de outra ordem, mas não parou. Seguiram outras polarizações mais polêmicas: a primeira trouxe a separação entre animais x homens, com o agravante de atribuir aos homens o poder de domínio sobre a natureza. Além das dificuldades que o homem precisou enfrentar para comer o pão com o suor do rosto, sua hegemonia sobre a natureza tornou-se fonte de disputa de poder, de consequências nefastas para a convivência do homem com os próprios semelhantes. Visando o conforto de Adão e o crescimento da prole, instituiu-se, sob olhares suspeitos, a diferença de gênero: macho x fêmea, o que na atualidade mostra-se de desdobramentos variados. Como se não bastasse, o Ser Supremo, mesmo com as prováveis melhores intenções, acabou criando outra polêmica ao escolher um povo para chamar de seu, elegendo-o beneficiário da ‘terra prometida’.

Mas a maior dádiva divina, no que se refere às sementes de discórdias, ainda parece ter sido a delegação do poder de escolha, aquilo que se conhece pelo nome de ‘livre arbítrio’. A escolha pressupõe lados a serem escolhidos. A escolha privilegia o escolhido em detrimento do preterido. Mas, acima de tudo, o privilégio da escolha implica na responsabilização pelo ato de escolher; e implica também conformar-se perante aquilo que foi perdido: eis uma das maiores complicações a serem enfrentadas pelo homem, que parece ter sido forjado para não querer abrir mão de absolutamente nada.

Como descreve o Grande Inquisidor, em Os irmãos Karamázov, o livre arbítrio foi um erro crasso cometido pelo Ser Supremo. Representa a maior fonte de sofrimento humano, pois, apesar de parecer o contrário, nada é mais insuportável ao homem do que a liberdade de escolha. Se lhe tivesse sido dado o poder de transformar pedras em pães, a humanidade seria um rebanho dócil, eternamente grata ao Criador. Mas que liberdade pode haver sem pão? Liberdade de bucho vazio, Senhor? A liberdade e o pão da terra são incompatíveis, pois os homens nunca saberão dividir. Dê-lhes, enfim, o pão, a rima da escravidão!
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Escritor e psicanalista