Por Eliecim Fidelis
O senhor João acordou cedo e tentou acessar os investimentos. Confere o saldo todos os dias, mas desde ontem não consegue conectar sua conta. Era pouco, mas tudo que pôde juntar desde que começou a trabalhar na loja de tecidos até a aposentadoria. Pessoa prevenida, poupador que seguiu o conselho do saudoso pai, marceneiro respeitado no bairro onde morava. Por sugestão do genro, corretor de seguros, transferiu todo o dinheiro da poupança para o Brasprev.
Aguardou a hora do expediente bancário e saiu arrastando a bengala. Levou a caneta bic e a borracha, achando que lhe pediriam para preencher o formulário. Embora com a mão trêmula, informaria outra vez seus dados: nome, endereço, CEP etc. Mesmo com algum vacilo, esses dados ele ainda tirava de letra. Ficaria em dúvida apenas na hora de registrar a idade: “Só falta um mês para meu aniversário, posso botar oitenta e nove?”.
No balcão de vidro polido, lá estava a mocinha educada a prestar as instruções aguardadas pelo senhor João. O cliente encostou a bengala no balcão e ficou atento às instruções. Em sua imagem refletida no vidro, acha-se mais jovem, a corcunda invisível.
A vozinha doce da moça escorre serena pelos tímpanos do senhor João, quase o hipnotizando: “É só o senhor baixar o aplicativo, criar uma senha segura de oito dígitos, sendo letras maiúsculas e minúsculas, números e pelo menos um caractere. O senhor faz o login, acessa o arquivo, e aí o senhor obtém o código de acesso. Entendeu?”. O senhor João ia escorregando, mas se segurou na bengala. Quer pedir à moça para lhe ajudar a ‘baixar o aplicativo’, a primeira coisa a ser feita, mas ela já atendia outra pessoa da fila. E ele ficou por ali.
A história do senhor João serve de exemplo para mostrar a dificuldade que a população idosa, e até muita gente de média idade, enfrenta nos dias de hoje. Serve também para questionar o conceito de “modernidade”.
Pode-se dizer moderna uma sociedade que decreta, de modo unilateral, o uso de aplicativos, códigos e portais para tudo que o cidadão necessita? Que marginaliza boa parcela da população, em especial os idosos, ao lhe impor mil dificuldades para o cidadão acessar aquilo que é de sua propriedade, a exemplo do Brasprev do senhor João, um direito líquido e certo? Não seria dever dos detentores da tecnologia moderna, que se enriquecem com ela, compartilhá-la a todos indistintamente?
É que, em seu implacável percurso, o tempo às vezes deixa de ser só uma medida da passagem dos dias, arvorando-se ao papel de reordenar o mundo. O que ontem representava progresso, torna-se peça de museu. O que antes sustentava ideias, mercados e famílias, por décadas, despede-se, mas não sem deixar marcas.
E, assim, a história do senhor João, e de todos os Joãos e Marias da vida, leva-nos a uma reflexão sobre o tempo e aquilo que ele pode trazer ou levar consigo em sua missão secular de sempre seguir adiante. Mas o tempo não é apenas cronológico, há outra dimensão em foco. Trata-se de uma força transformadora que inverte certezas, altera esperanças, muda rumos e expectativas, expõe fragilidades reais ou imaginárias, transpõe barreiras éticas e pode até trazer valentia aos frágeis: diante da fúria a que presencia; a bengala quebrada e estilhaços de vidros espalhados sobre os tapetes da sala, os guardas tiveram dúvidas se conduziriam o senhor João à delegacia ou ao manicômio.
Enfim, o leitor pode concluir que não foi apenas com o senhor João que o tempo andou mexendo. Ele mexeu com a cadeia de negócios, com o status cultural e com a solidez dos costumes estabelecidos. Como o tempo da música, sua velocidade, pausas e pulsações, o tempo do senhor João interroga a cadeia temporal e desagua na inquietude do artista: “John, o tempo andou mexendo com a gente/A felicidade é uma arma quente…”. (Belchior, 1979).
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Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise – fidelis.eli@gmail.com
