Obesidades: Um Sintoma Contemporâneo

No momento você está vendo Obesidades: Um Sintoma Contemporâneo

Por Slanowa Santos Cruz

Precisamos falar sobre obesidades, no plural, uma vez que esta doença crônica e multifatorial acomete cada sujeito de forma singular. Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), ela é caracterizada pelo acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal a um ponto que compromete a saúde, estando ligada a fatores metabólicos, genéticos, comportamentais e ambientais. Indo além do cálculo padronizado do Índice de Massa Corporal – IMC, entendemos que a obesidade não se define apenas pelo peso na balança, mas pelo seu impacto na funcionalidade e no bem-estar do indivíduo.

Na prática clínica, o olhar social costuma oscilar entre a culpabilização por “falta de disciplina” e a patologização total, como se o corpo gordo apagasse a identidade do sujeito. O tratamento psiquiátrico e psicológico nos convida a investigar o avesso disso. Vivemos sob a ditadura de um ideal de corpo magro que carrega promessas de aceitação e sucesso. Quando esse ideal vira mandamento, o sofrimento psíquico se intensifica e o ato de comer pode assumir a função de regular uma angústia que não encontrou outras vias de expressão.

A relação entre obesidade e sofrimento psíquico é recíproca. Estudos apontam que, em média, 58% das pessoas com depressão tendem a desenvolver obesidade ao longo da vida, enquanto 55% dos indivíduos que sofrem de obesidade estão propensos a apresentar sintomas de depressão — um ciclo em que corpo e psiquismo se afetam mutuamente.

Um levantamento na revista The Lancet revelou que a obesidade no mundo já superou um bilhão de pessoas em 2022. No Brasil, segundo pesquisa do Vigitel – Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico -, realizada pelo Ministério da Saúde , a enfermidade entre adultos saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Hoje, somando sobrepeso e obesidade, quase dois em cada três brasileiros adultos vivem com excesso de peso.

Atrás de cada estatística há uma história singular. É nesse ponto que a epidemiologia se encontra com a clínica: os dados mostram a dimensão coletiva; a escuta mostra que cada caso pede um nome próprio. É tentador reduzir a obesidade a uma equação matemática de calorias, mas os limites desse modelo revelam que fatores neuroendócrinos e comportamentais se entrelaçam a uma dimensão subjetiva que nenhuma prescrição dietética, isoladamente, resolve.

Tratar a obesidade implica acolher as comorbidades psiquiátricas frequentes, como transtornos depressivos e alimentares, em vez de atribuir o insucesso terapêutico a um déficit de autocontrole — leitura que reforça a culpa e compromete a adesão. Por isso, o tratamento deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar composta por endocrinologista, nutricionista, fisioterapeuta, psiquiatra e psicólogo.

Enquanto a medicina investiga as bases metabólicas, a saúde mental se debruça sobre o lugar que a comida ocupa na vida psíquica daquele sujeito. Cuidar do corpo e da mente de forma integrada não é opcional, é fundamental.
——————————————————————————–
Psiquiatra da Clínica Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria