José de Jesus Barreto
Carnaval 81.
Liambácidos depois, fumacê e sonoridades lisérgicas, desatinos e…
a Praça Castro Alves já não nos cabia, o esfrega-esfrega ardia.
Tresloucada insensatez…
Sem nada dizer, demos um fora, a caminhar, tomar ar, avoar.
O bafo de mijo que subia da Ladeira da Montanha inebriava a madrugada.
No Clube de Engenharia os rostos conhecidos se desmilinguíam, olhos pocados.
Mentes disformes, gargalhadas à toa, trio ao longe, batuque acolá, abduções.
Piedade, pernas, Casa d’Itália, fôlego, Campo Grande, furdunço, cheio de lança e cocô.
As árvores do Corredor da Vitória, quase deserto, pareciam conversar; mijamos nelas.
Andávamos, riamos do nada, cada prédio frio parecia um palácio, ‘que belo ácido’!, fantasmas habitam.
Lanhos de arrepios na amurada da Ladeira da Barra, perplexos diante da imensidão azul escuro do mar, lá embaixo, águas rastreadas de prata pela lua minguante, ainda gorda.
Pele grudenta, amassos, beijos, tesão de profundezas, de desaparecimentos.
Na praia do Porto, madrugada de quase ninguém (não tinha carnaval na Barra).
Mortalhas na areia, corpos quase nus, só calcinha e cueca, o imã das águas mansas
e mornas, colo uterino. Molhados, aquele sexo ligeiro, quase desmaios.
Esquecidos do mundo.
Pincelam os olhos nos primeiros tons do albor.
Luminescências.
Renascidos.
*

“Trago ainda guardado
Como lembrança
Do carnaval que passou
Uma toalha bordada
Que na escola de samba
Teu lindo rosto enxugou”
(Batatinha)
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Escritor e jornalista

